Fronteiras fechadas a Portugal. E ao Brasil.

Fronteiras fechadas a Portugal. E ao Brasil.

Margarida Vaqueiro Lopes

19 de junho de 2020 | 19h13

Portugal entrou recentemente na terceira fase de desconfinamento, apesar de a pandemia ainda estar longe de estar terminada – muito por conta da economia, que estava em cuidados paliativos desde o dia 18 de março, a data em que Marcelo Rebelo de Sousa e Antônio Costa decretaram o primeiro Estado de Emergência que o país viveu.
Desde que a gente começou esse desconfinamento, o número de casos tem vindo a aumentar consistentemente, todos os dias. São entre 300 e 400 casos diários, o que não é particularmente preocupante por três razões que precisamos ter em conta: 1) Portugal continua, de fato, sendo um dos países da Europa que mais testes realiza; 2) o número de internamentos e de internamentos em UTI tem estado a reduzir; 3) os hospitais do SUS estão com capacidade suficiente para continuar a receber pacientes com sintomas graves.

Pessoas esperando na fila para os correios, cumprindo a distância de segurança. Lisboa / junho 2020

Agora, as razões pelas quais precisamos nos preocupar, e que seria bom que servissem de exemplo para outros países: possivelmente, vamos ter que viver com esse [já não tão] novo coronavírus durante muito tempo. Apesar de os resultados sobre alguns medicamentos como a bexametasona serem promissores, a verdade é que ainda há muitas dúvidas sobre as formas de contágio, as razões pelas quais os sintomas atingem proporções tão graves em algumas pessoas e noutras não, e estamos bem longe ainda de achar uma vacina – que, já avisaram muitos especialistas – pode nunca chegar.

Então, era importante que as pessoas continuassem tendo cuidado: sim, é fundamental utilizar máscara sempre que a gente está num espaço fechado; sim, é fundamental desinfetar as mãos (ou pelo menos lavá-las bem com água e sabão regularmente); sim, é fundamental não fazer festejos com um monte de gente – ainda recentemente dezenas de pessoas foram infectadas depois de participarem numa festa. Muitas delas, crianças com menos de 9 anos, foram infectadas em casa, por participantes dessa mesma festa privada de aniversário que junto mais de CEM PESSOAS no Algarve, zona sul do país. Gente, estão proibidas as reuniões com mais de DEZ pessoas. Juntar 100 pessoas num único lugar é brincar com o fogo!

Gente, a pandemia não terminou por que a economia precisou de reabrir – e precisa, porque todos nós precisamos de comer. O vírus está aí, está ativo, e à conta desses números em Portugal, oito países europeu continuam com as suas fronteiras a turistas portugueses. Dinamarca, Espanha, Chipre, Áustria, Lituânia, Letónia, Hungria e Eslováquia. Para além destes, outros cinco nos marcaram a ‘vermelho’ (o que significa que temos restrições na entrada, que podem passar por fazer testes à Covid e períodos de quarentena obrigatórios): é o que acontece com a Grécia, Bulgária, República Checa, Estónia e Montenegro.

Se os países da Europa – onde a gente tem fronteiras abertas, genericamente – estão barrando a nossa entrada com os números atuais, imaginem o que vai continuar acontecendo com países que apresentam os números que o Brasil ou os EUA têm apresentado.

E isso é só se falarmos das viagens transfronteiriças. Porque ainda há as questões internas: é importante as pessoas não fazerem viagens desnecessárias e descuidadas para outras cidades ou estados onde podem colocar em risco as populações. Sobretudo se estivermos falando de lugares onde os recursos de saúde não são suficientes para se os sintomas se agravarem e for necessário internamento.

Vamos mesmo acreditar que uma festa de aniversário pode valer a vida de alguém? Vamos mesmo arriscar um jantar, um almoço, uma baladinha básica e saber que isso pode realmente matar pessoas – sobretudo porque a gente não faz ideia de que pessoas mata. Nossa mãe? Nosso pai? Nosso avô? Nossos filhos? Nossos irmãos? Nossos amigos?

E mesmo que não os mate, será que a gente quer ser responsável por causar sequelas graves em alguém, por um momento de alegria?

Enfim. Eu estou desejosa de ir de férias. De entrar num avião, de conhecer lugares novos, de voltar a viajar sem restrições, de estar com os meus amigos, minha família, em grandes jantares, em um restaurante tranquilamente, tomando um copo de vinho num bar legal. Mas a verdade é que AINDA NÃO VALE A PENA.

E se o seu desejo de viajar ou de estar com aqueles de quem gosta é enorme, aguente só mais um pouco. Faltam menos três meses que no início de tudo. E se pensar nisso assim, vai ver que tudo fica mais fácil – até mesmo aguentar a irresponsabilidade dos governantes que ainda não entenderam que nem todo o mundo está vivendo essa pandemia dentro de um iate, fazendo aulas de yoga e alinhando os chacras.

Para a generalidade das pessoas, essa pandemia está sendo uma tragédia. Mas para ela não piorar, era bom que chegássemos vivos ao final de tudo isso!

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