Gisberta foi assassinada há dez anos. Nós mudámos?

Margarida Vaqueiro Lopes

22 Fevereiro 2016 | 10h46

Faz esse ano dez anos que Portugal foi palco de uma das histórias mais macabras desse século. Um grupo de menores de idade agrediu, durante vários dias, uma transexual brasileira que vivia no Porto. No final, achando que ela já estava morta, jogaram o seu corpo num poço abandonado. Afinal, a mulher de 45 anos estava viva, ainda, e morreu afogada às mãos das crianças. Dez anos depois, a foto de Gisberta está sendo espalhada como homenagem e como apelo à não-discriminação.

Dez anos depois, as crianças que a mataram não são assim tão crianças mas ninguém sabe bem onde estão. Eram rapazes que viviam num lar para filhos de famílias desestruturadas, que entretanto também foi encerrado por se descobrir que as crianças eram mal-tratadas. A defesa dos menores sempre disse que esse não teria sido um crime de ódio mas sim um “crime de grupo”, que só havia acontecido porque os rapazes estavam todos juntos. Que eles, individualmente, não seriam pessoas agressivas, muito menos homicidas.

A verdade é que eles surraram e afogaram uma mulher até à morte, ao invés de chamarem uma ambulância que a pudesse ajudar. Dez anos depois, Gisberta está enterrada em São Paulo, de onde era natural, mas o Porto ainda recorda a violência da sua morte – e no limite, da sua vida: transgénero, imigrante ilegal, prostituta, seropositva, ela é a imagem de muitas pessoas que não conseguem fugir à degradação da vida da noite e da não aceitação social.

Dez anos depois, importaria entender o que mudou na nossa justiça – os rapazes cumpriram penas menores em estabelecimentos de correção – e o que mudou no mundo do preconceito. Porque os números mais recentes – relativos a 2014 – revelam que os crimes contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e intersexuais foram cerca de 200, em Portugal. E esse número será sempre demasiado alto.


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