Já não sabemos conversar

Margarida Vaqueiro Lopes

09 Maio 2016 | 11h38

Um desses dias fomos jantar com uns amigos, para celebrar o aniversário de uma delas – e vocês sabem com ao gente liga para o momento das refeições em Portugal, certo? Já falámos sobre isso! Pois bem, estávamos numa mesa de seis, conversando animadamente como é suposto num jantar de amigos.

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A meio da refeição, na mesa ao nosso lado, sentou-se um casal jovem – não teriam mais que 25 anos – para jantar. O primeiro olhar de desagrado partiu da moça, assim que se ouviu uma gargalhada mais sonora na nossa mesa. Pensei que talvez tivesse sido demasiado sonora, e não liguei. Aí dei conta de que ela continuava olhando. De 2 em 2 minutos a moça nos lançava um olhar furioso, dizia alguma coisa ao rapaz que estava com ela, ele próprio ficava olhando com um ar super incomodado e desviava o olhar.

À quarta ou quinta vez que notei que estavam olhando e comentando pensei que talvez estivéssemos fazendo muito barulho e incomodando a conversa deles. Então dei aquela olhada mais atenta, para perceber o que de tão errado estaríamos fazendo. E qual não é o meu espanto quando vejo os dois comendo de olhos postos nos seus celulares. Os dois vendo as redes sociais, respondendo a mensagens, em silêncio absoluto um com o outro, excepto quando era para comentar o barulho que nós fazíamos.


Outro dia de manhã, quando estava caminhando para o trabalho, me dei conta que todos os dias passo numa pastelaria (ou padaria para vocês) onde muita gente toma o café da manhã. E todos eles, sentados em mesas de duas ou quatro pessoas, estão agarrados aos celulares, ignorando totalmente a pessoa ou as pessoas que os rodeiam…então me dei conta de uma outra coisa, que me preocupou bastante: o problema do casal que sentou do nosso lado não era o barulho que a gente estava fazendo ou a risada que estávamos dando. O problema do casal era essa coisa chamada conversa analógica que parece que as pessoas decidiram esquecer. E aí eu pergunto: nós deixámos de saber conversar? De querer interagir? De nos interessarmos pelos outros?

Me digam, por favor, que isso não é apenas um fenômeno português!

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