Morre-se nos hospitais por causa da crise

Margarida Vaqueiro Lopes

06 Janeiro 2016 | 14h04

No dia 11 de Dezembro, uma sexta-feira à noite, o português David Duarte, de 29 anos, deu entrada no serviço de emergência do Hospital de São José (público), porque tinha um aneurisma que rebentou. Veio transferido do Hospital de Santarém, uma cidade a cerca de uma hora de distância de Lisboa (pouco mais de 80 km).

No dia 14 de Dezembro, de madrugada, David Duarte morreu no Hospital, sem que qualquer intervenção cirúrgica tivesse sido feita. As equipas de neurocirurgia vascular e neurorradiologia deixaram de fazer plantões nos finais de semana, há mais de dois anos, em protesto contra o corte feito no valor das horas extra, provocado pelo duro programa de austeridade imposto pelo anterior governo e por Bruxelas.

O caso de David não foi o primeiro – foi o quinto, pelo menos –, mas a exposição mediática deu frutos: a partir desse mês, Janeiro, afinal, já vai ser possível ter equipes de plantão, de forma alternada, em quatro hospitais de Lisboa. Ainda ninguém sabe como e quanto esses profissionais, de repente disponíveis, vão receber pelos plantões. Ainda ninguém entendeu, também, como foi possível deixar morrer um paciente – não houve comunicação com outros hospitais, nenhum médico foi chamado – que se sabia precisar de intervenção imediata. O presidente da Sociedade Portuguesa de Neurocirurgia, Carlos Vara Luíz, defende que foram seguidas as normas internacionais. Aliás, disse mesmo que o jovem morreu “dentro das normas internacionais”.

Os presidentes da administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, do Centro Hospitalar de Lisboa Central e do Centro Hospitalar Lisboa Norte se demitiram na sequência do caso, e defendem que os médicos não poderiam ter deixado o jovem morrer sem intervenções que tentassem salvar a sua vida.


Que a crise tinha afetado a saúde, a gente já sabia. Os médicos portugueses fizeram greve, se demitiram, deixaram de trabalhar. Agora, há pessoas morrendo. E eu me pergunto: onde vai parar o Serviço Nacional de Saúde? Emergência só pode acontecer de segunda a sexta?