Muita calma nessa hora

Margarida Vaqueiro Lopes

30 Março 2016 | 11h26

Desde o início do ano que tenho falado com vários empresários, a trabalho. Na análise que faço aos seus negócios, tem acontecido algo realmente curioso quando chega a hora de entender quando eles sentiram mais a crise financeira que chegou ao país, em força, em 2011 – na época em que a ‘troika’ internacional foi chamada a pagar um resgate de quase 80 mil milhões de euros para que Portugal não entrasse em inadimplência.

E enquanto eu espero que todos eles me digam que 2012 foi o pior ano – as regras da economia mudaram brutalmente, os efeitos nocivos do resgate tiveram impactos signficativos e na verdade a gente foi vendo vários negócios fecharem portas enquanto outros mal se aguentavam de pé – a verdade tem me surpreendido em todos os seores de atividade: o pior ano terá sido realmente 2014. Para as empresas que ainda estão em atividade e saudáveis, entenda-se.

E porquê?

Porque 2014 foi o ano em que o Banco Espírito Santo – que era detentor do Banco Espírito Santo Investimento, aí no Brasil – desapareceu no meio de um estrondoso escândalo financeiro. E parece que, emocionalmente, isso foi um duro golpe para todos os empresários, nem tanto pelo impacto direto que o desaparecimento do banco teve, mas muito pelo sentimento que passou a dominar a sociedade: o medo; a incerteza; as dúvidas sobre qual seria o próximo banco a desaparecer, numa altura em que o sistema financeiro português falhava em dar sinais de estabilidade e segurança. As dúvidas sobre a atuação dos reguladores atingiu um pico, as pessoas cortaram no consumo e se agravou o clime de insegurança no que à economia diz respeito.


No final do ano passado, 2015, a gente mudou de governo, aqui em Portugal. Depois de quatro anos com uma aliança governativa de direita, em Outubro, uma aliança de esquerda chegou ao poder – juntando vários pequenos partidos sem experiência governativa. No início de 2016, um outro banco foi considerado inadimplente e alvo de uma medida de resolução – o Banif (que era dono do Banif Brasil, aí desse lado do Atlântico). Embora com uma quota de mercado pequena, o Banif era também um banco antigo e com uma reputação relevante no mercado. A gente trocou também de Presidente da República, com Marcelo Rebelo de Sousa – um académico que 90% dos portugueses adoram porque durante anos foi comentador televisivo, mas com pouca vida política – a suceder a Cavaco Silva.

A procura voltou a retrair um pouco, com os portugueses a terem dúvidas sobre o que poderá acontecer ao país nos próximos tempos, quer em termos políticos, quer em termos econômicos.

Sei que as proporções da crise política que está sendo vivida em Portugal – ou foi, que a gente ainda não entendeu muito bem se ela já passou ou não – nem sequer é comparável à que está sendo vivida atualmente por vocês, aí por terras de Vera Cruz. Mas o que eu sei, e o que é importante que todos tenhamos em mente, é que por muito que a gente acredite que as coisas que acontecem num setor ou numa área não têm que ter consequências na restante sociedade, cada vez menos é possível fazer essa separação: por isso, querido Brasil, muito cuidado com o que está acontecendo. Os olhos estão postos em você, porque o poder judiciário não está funcionando!, a política está nas ruas da amargura e a economia vai, invevitalmente sofrer aquele que poderá ser o pior golpe das últimas décadas.

Como vocês mesmos diriam: muita calma nessa hora!