O empreendedorismo veio para ficar?

Margarida Vaqueiro Lopes

02 Maio 2016 | 14h42

São Francisco da Europa. A nova Berlim. Estas são apenas duas das descrições que já serviram para designar a cidade de Lisboa quando se fala de empreendedorismo. As start-ups têm nascido que nem cogumelo – muitas têm desaparecido à mesma velocidade – e essa semana há mais um programa totalmente dedicado a empreendedores na capital portuguesa. A Semana do Empreendedorismo de Lisboa traz até às sete colinas 40 eventos de entrada gratuita para quem quer aprender a ter sucesso como empresário. Workshops, conferências, eventos com advogados, por exemplo, são apenas algumas das coisas que irão acontecer em 20 diferentes lugares de Lisboa, segundo a prefeitura (que aqui a gente chama de Câmara Municipal. Quase cem parceiros se juntaram para tornar esta semana possível, apenas seis meses antes de a cidade receber o Web Summit, que promete também trazer pessoas bastante relevantes no panorama do empreendedorismo.

FullSizeRender-13-300x297.jpg

© 2016 Sambando em Lisboa. All Rights Reserved

Mas se Lisboa tem tanto empreendedor, tanto projeto acontecendo, tanta ideia fervilhante, por que razão a economia nacional ainda não sente o impacto verdadeiro desses alegados gigantes? Esse mês, a edição portuguesa da revista FORBES – na qual trabalho atualmente, devo fazer essa ressalva – nota que por cada empresa que nasceu em Portugal em 2015, uma fechou. O número é bastante legal. Outro número super legal é o do investimento captado: só na área das tecnologias, as start up captaram, nos últimos cinco anos, 166 milhões de euros, e criaram dez mil postos de trabalho, refere a mesma revista.

Mas o que eu tenho mesmo curiosidade de saber é quanto valem esses polos empreendedores no país. Quanto dinheiro geram. Qual a sua faturação, quais os resultados líquidos, qual o potencial de crescimento. E adivinhe: isso eu praticamente não consigo fazer. Porque os empreendedores portugueses não gostam muito de mostrar os seus números. Numa entrevista recente a um presidente executivo português de uma start up sedeada nos EUA, ele dizia que um dos grandes problemas dos empreendedores portugueses era a falta de transparência e o fato de terem dinheiro demais numa fase inicial.


Talvez. Aconteceu eu fazer um trabalho sobre uma start up que acabaria por não ser publicado porque os responsáveis se recusaram a mostrar os números relativos à faturação e aos lucros – a gente só consegue aceder aos resultados anuais das empresas a meio do ano seguinte, então a atualidade fica bem comprometida – afirmando que “nunca ninguém lhes tinha pedido tal coisa”. Legal, né? Investimento pode falar, agora resultados… em Portugal, ainda nenhuma start up entrou em bolsa, o que daria oportunidade de entender qual o real valor da companhia, o que significa que a opacidade se mantém.

Eu não sou contra os empreendedores – acho realmente que essa onda de empreendedorismo pode salvar parte da nossa economia. Mas acho também que essas avaliações loucas que estão acontecendo aí de empresas cujos resultados a gente não sabe ainda vai penalizar muito mais do que trazer bons frutos. Espero realmente estar errada e que essa euforia dê muitos frutos bons.

Acompanhe o blogue no Facebook

Mais conteúdo sobre:

empreendedorismoPortugalweb summit