O mundo cabe em Portugal?

O mundo cabe em Portugal?

Margarida Vaqueiro Lopes

15 de abril de 2019 | 09h59

Já sabemos que Portugal deu novos mundos ao mundo, que juntamente com Espanha decidiu partir por esses mares fora e conquistar vários países. Há até divergência sobre a forma como a gente olha para isso, e sobre o fato de sempre nos termos orgulhado de ter povoado o Brasil, a África, quando na verdade fizemos tanta coisa errada. Mas foi o que foi e não vale a pena estar olhando para comportamentos do passado com os olhos do presente, porque a análise será sempre falaciosa.

Dito isto, o que permanece na cultura portuguesa – e não é dito por mim, mas pelas pessoas com quem me cruzo – é essa capacidade de adaptação que a gente tem a um novo meio e a povos que não sejam portugueses. Em Lisboa isso se sente mais, porque naturalmente a população é mais numerosa, mas a verdade é que por todo o País se têm multiplicado o número de estrangeiros que escolheram Portugal para viver, entre os quais muitos brasileiros.

Há uns tempos, em passeio pelo centro do País, encontrei também franceses, alemães e ingleses que há vários anos decidiram trocar os seus países por esse retângulozinho na ponta na Europa – ou porque querem morar num lugar mais pequeno, ou porque é mais barato, ou simplesmente porque não resistem ao clima ameno que se faz sentir todo o ano.

Há também quem venha em busca de segurança e de liberdade – é o caso de alguns refugiados da Síria, da Eritreia ou do Sudão que Portugal já acolheu e cujo número deverá voltar a subir esse mês. Aliás, falando disso, há um projeto que vale bem a pena conhecer numa próxima visita a Portugal: o restaurante Mezze, que é totalmente gerido por 10 refugiados sírios que chegaram a Portugal há cerca de quatro anos. Com a ajuda da Associação Pão a Pão (criada para ajudar refugiados a se integrarem no mercado e no país), tem feito as delícias dos muitos clientes que já tornam difícil encontrar uma mesa para jantar. Essa foi também uma forma de criar postos de trabalho para essas pessoas que chegaram aqui sem nada.

Uma portuguesa, uma brasileira e uma angolana à mesa de um restaurante sírio em Lisboa. Isso é Portugal.

Recentemente, numa conferência sobre Turismo, escutei uma empresária nascida em Singapura dizendo que nunca se tinha sentido tão bem acolhida como em Portugal: “não tive problemas com o meu tom de pele, com a minha religião, com o fato de não falar a língua…”, aplaudia ela salientando que já tinha vivido em vários outros países onde a integração não tinha sido tão bem sucedida.

Aliás, há inúmeros restaurantes, lojas, projetos e serviços que foram criados por estrangeiros e que estão a ter tanto ou mais sucesso do que se tivessem uma etiqueta dizendo ‘Made in Portugal’.

Hoje é muito fácil ter vizinhos brasileiros, ingleses, franceses, norte-americanos, alemães, indianos ou angolanos. A gente não estranha responder em inglês ou francês na rua, e já nem temos a certeza de estarmos falando com turistas ou com habitantes deste país que tem dificuldades em fechar as portas a quem quer abraçá-lo como seu.  A minha filha está numa escola onde a cozinheira é asiática e os pais de muitos meninos têm outra nacionalidade que não portuguesa, o que significa que muitas vezes ela chega em casa com palavras novas que aprendeu em outras línguas ou sotaques e acha tudo isso normal. Que privilégio, esse, de podermos viver num mundo multicultural sem sair da nossa cidade.

Numa altura em que se agigantam os discursos de ódio, a intolerância com quem não tem a nossa cor de pele, religião ou as mesmas ideias políticas, Portugal ainda vai sendo um pequeno oásis – apesar de ainda registrarmos algumas situações de racismo e xenofobia, elas são residuais quando comparadas com o número absoluto de pessoas que temos vivendo aqui.

E que orgulho tenho – eu, que por norma, tenho pouco orgulho nesse meu país! – por a maior parte dos portugueses entender e respeitar que as pessoas que chegam de outros lugares são exatamente como nós: pessoas iguais, em busca de um mundo melhor.

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