O silêncio também mata

O silêncio também mata

Margarida Vaqueiro Lopes

03 de junho de 2020 | 07h30

A II Guerra Mundial não foi assim há tanto tempo que esteja já longe de nossas memórias. A limpeza étnica e racial levada a cabo por Adolf Hitler – que, nunca é demais lembrar, foi democraticamente eleito e ocupava legitimamente o seu cargo – deveria ser, ainda hoje, uma das maiores vergonhas da sociedade ocidental. Porque não foram apenas os nazistas que mataram milhões de pessoas nos campos de extermínio e nas ruas das cidades europeias: todos aqueles que calaram, que ignoraram relatos, fotografias, documentos e evidências acabaram por se tornar cúmplices dessa tragédia.

Uns ignoravam porque achavam que era demasiado ignóbil para estar acontecendo. Outros ignoravam porque é mais fácil calar do que lutar. Outros ainda ignoravam porque tinham medo de o não fazer.

Essa semana, em meio das várias tragédias que estão acontecendo pelo mundo – no Brasil, o número de mortos por Covid-19 superou os 30 mil; nos EUA, policiais matam homens negros simplesmente porque o podem fazer; na Europa, continuamos fingindo que o racismo é coisa das Américas – talvez seja importante lembrar esses momentos da História em que o silêncio contribuiu para finais sobejamente infelizes.

As últimas palavras de George Floyd, morto às mãos de um policial americano, sobrevoaram várias cidades dos EUA // Foto de Jammie Holmes/Library Street Collective/Hayden Stinebaugh.

Essa terça-feira, 2 de junho, as redes sociais se levantaram num movimento lindo, com imagens totalmente negras que pretendiam honrar a memória de todos aqueles que sofrem discriminação pela sua cor de pele em pleno século XXI. Uma intenção bonita, mas que fica por aí mesmo se a gente não falar sobre os assuntos, sobretudo quando devemos fazê-lo: quantas vezes a gente defendeu um negro numa situação particular de ofensa verbal ou física? Quantos de nós cresceram acreditando que os negros são os empregados, as faxineiras, o moço de recados e não os donos da casa e do carro? Quantos de nós se cruzaram com professores negros durante o percurso acadêmico? Quantos de nós fala de forma diferente dos países africanos (aliás, a gente diz África, não é? Como se aquele continente fosse um só país) só porque achamos que têm algo de diferente?

E não, não é pior ou melhor em países profundamente ligados às raízes africanas: o Brasil e os EUA, para continuar nos dois exemplos citados, são nações lindas que precisaram de muitas mãos afrodescendentes para serem o que são hoje. São países onde a negritude está presente na cultura (que bom!), na dança, no sangue. E nem por isso são países menos racistas.

Parece meio idiota ter que voltar a falar disso tudo tantas décadas depois de Martin Luther King ser assassinado ou de Rosa Parks ter se recusado a levantar do banco de um ônibus por ser negra. Parece meio ridículo ter que lembrar que os países e as sociedades agem, contextualmente, seguindo os exemplos que têm. Parece meio absurdo ter que apontar o dedo ao presidente da Casa Branca, que sucedeu ao primeiro presidente negro da História daquele país, e que hoje lidera uma nação onde o ódio e a violência escalam a cada segundo, sem qualquer respeito pela vida das minorias.

No Brasil, a displicência com que o presidente Bolsonaro fala da vida das pessoas que não param de morrer porque ele se recusa a tomar medidas sérias – e, quem sabe, a escolher alguém competente, com conhecimento científico e responsável para o cargo de Ministro da Saúde – é aterradora. Lembram de quando, em janeiro de 2019, todo o mundo dizia que “ele só fala o que a galera está falando no boteco”? Pois é. O problema é que quando os líderes legitimam pensamentos xenófobos, racistas e preconceituosos, eles passam a ser aceites pela sociedade.

Esses dias li, numa rede social, a história de uma médica que foi violentamente agredida no Grajaú, no RJ, perto da casa onde morava. Depois de pedir insistentemente para a polícia terminar com as ‘Festas Coronavirus’ que estavam dando na casa do lado, não só porque as pessoas deveriam estar em isolamento mas porque precisava de descansar para trabalhar no dia seguinte – lutando para salvar a vida, quem sabe, de presentes nessa festa –, ela não aguentou mais. Saiu de casa e quebrou parte do carro de um dos moradores da casa-festa. O azar dela? O dono era policial. É isso: no século XXI, num país que se diz desenvolvido, a médica foi espancada, arrastada pelos cabelos e deixada no meio da estrada enquanto um policial pedia para ela 6 500 reais para “o assunto ficar por aqui mesmo”.

Algum vizinho se insurgiu? Não. Alguém ajudou essa mulher? Não. Alguém ligou para o 192? Não. O silêncio também mata. E quando nós ouvimos Bolsonaro dizer absurdos como ‘quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma Tubaína’, no momento em que milhares dos seus cidadãos estão morrendo, é preciso levantar a voz, sim.

E quando Trump fala que pode usar violência para travar protestos anti-racismo (as forças policiais DELE mataram um homem PORQUE SIM), é preciso levantar a voz, sim.

E quando é hora de votar, é preciso ir lá e não dar votos para quem acredita que há vidas mais importantes que outras, porque não é “da boca para fora” que estão falando, não. É real.

Lembra daquela famoso fala de Martin Niemöller? “Primeiro vieram buscar os comunistas e eu não disse nada pois não era comunista. Depois vieram buscar os socialistas e eu não disse nada pois não era socialista. Depois vieram buscar os sindicalistas e eu não disse nada pois não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus e eu não disse nada pois não era judeu. Finalmente, vieram buscar-me a mim – e já não havia ninguém para falar”.

Pois é.

Que não nos falte a voz, a coragem, para falarmos pelos outros. E se a humanidade não for razão suficiente para o fazer, então pense que um dia pode ser você precisando de um ventilador, perdendo um filho para bala de policial ou morrendo com um joelho na garganta.

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