Pimenta nos outros…é refresco

Margarida Vaqueiro Lopes

13 Janeiro 2016 | 14h17

Na noite de dia 12 de Janeiro de 2016, em Washington, Barack Obama dirigiu ao Congresso Americano o seu último Discurso do Estado da Nação. Em Janeiro próximo, será outro presidente a fazê-lo, depois de Obama ter estado oito anos no poder. Aliás, começa agora o seu último ano do último mandato, e é bem provável que seja também o seu melhor ano. É um clássico.

Mas isso é irrelevante para este blogue. O que não é irrelevante são algumas das coisas que foram ditas por Barack Obama, e que eu gostaria muito de ver replicadas em outros países do mundo, começando por Portugal. A frase parece ter-se perdido no meio daquele discurso de quase uma hora, mas para mim, foi bastante importante. E dizia Obama, referindo-se ao trabalho, salários e benefícios dos trabalhadores:

It’s not too much of a stretch to say that some of the only people in America who are going to work the same job, in the same place with a health, and a retirement package for 30 years are sitting in this chamber. For everyone else, especially folks in their 40’s and 50’s, saving for retirement, or bouncing back from job loss has gotten a lot tougher.

[Ou em tradução livre:]


“Não será esticar muito a corda dizer que algumas das únicas pessoas na América que vão fazer o mesmo trabalho, no mesmo lugar e com pacotes de saúde e de aposentadoria durante 30 anos estão sentadas nesta câmara. Para todos os outros, especialmente para aqueles que têm entre 40 e 50, economizar para a aposentadoria ou recuperar de ter perdido um emprego ficou muito mais difícil”.

Este é um dos grandes dramas da economia atual, e um dos desafios sociais do século para vários países: não é aumentando salários mínimos, dando aposentadorias mais altas que não sabemos como vamos pagar – porque a natalidade está decrescendo, a esperança média de vida aumentando e os salários caindo, a par das contribuições para o sistema de segurança social – nem tão pouco fazendo promessas eleitorais incríveis que dão os votos de todo o mundo mas afundam as contas do Estado num despesismo que não para mais. E por que não são tomadas as decisões certas? Por causa dessa frase aí em cima, que poucos governantes teriam coragem de proferir diante das suas Câmaras ou Parlamentos:

Porque quem decide, quem faz política, sabe que terá o mesmo trabalho durante toda a sua vida, com seu salário garantindo, fazendo bem ou mal as suas funções, e que não estão em causa os seus seguros de saúde ou a sua aposentadoria. E nunca estando ou tendo estado na pele de quem pode perder tudo, daqueles para quem a vida é uma luta diária por mais 100 reais (ou euros), por chegar no final do mês, para que a conta do hospital não nos faça ficar endividados, é muito difícil entender como o mundo funciona. E isso se aplica a muitos, demasiados países do mundo.

Mas já diz a sabedoria popular brasileira: Pimenta no … dos outros é refresco.

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