Portugal: a caminho do desconfinamento

Portugal: a caminho do desconfinamento

Margarida Vaqueiro Lopes

08 de maio de 2020 | 10h23

Depois do estado de emergência, entramos no estado de calamidade. A economia vai reabrindo, as pessoas saem na rua e os números são avaliados diariamente

Até agora morreram 1 105 pessoas em Portugal devido à Covid-19 (dados de 8 de maio de 2020), e registramos mais de 26 mil casos de infecção pela doença provocada pelo [já não tão] novo coronavírus.

Depois de termos vivido em estado de emergência seis semanas, o Governo liderado por António Costa decidiu decretar o estado de calamidade – que apesar de parecer pior, é na verdade, um estado de alerta de nível inferior ao da emergência – e que permite que os negócios vão começando a reabrir. Desde segunda-feira que as pequenas lojas de rua puderam voltar a receber clientes – com regras bem restritas como obrigatoriedade de uso de máscara e desinfectante –, as padarias abriram as portas (apenas para serviço de take-away) e os cabeleireiros e salões de estética receberam pessoas muito precisadas de um corte de cabelo, fazer as unhas ou apenas de uma conversa que alguém com quem não tenham passado os últimos 50 dias.

Se tudo der certo, daqui a 10 dias as creches e o ensino médio voltam também a receber estudantes, e os restaurantes deverão poder reabrir: com apenas 50% da lotação e mais uma vez, muitas regras de higienização. Para o início de junho, se espera a reabertura do pré-escolar e o regresso gradual aos escritórios – o teletrabalho continua sendo obrigatório.

Ninguém tem a certeza sobre se esse aligeirar das regras vai dar bom resultado – é preciso não esquecer que a pandemia não terminou! – mas a verdade é que não é apenas a economia que vai beneficiar dessa reabertura gradual. É também a saúde mental de todo o mundo, que já está dando sinais de agravamento, numa altura em que já passaram mais de 50 dias desde que estamos, todos nós, em confinamento e com regras de distanciamento social bastante apertadas.

Não sei bem como nos vamos comportar – tenho visto muita gente de máscara [nem sempre a utilizando corretamente] –, se entendemos que ainda não podemos fazer almoços e jantares com todos os amigos com quem gostaríamos de estar, se demos conta de que a nossa vida e comportamentos precisam de mudar profundamente. Porque esse vírus não desapareceu, porque vamos continuar a ver gente morrendo devido a essa doença, e porque precisamos todos, juntos e unidos, continuar a nos comportar de forma responsável para que Portugal não enfrente a tragédia que se está vivendo em outros lugares – já é uma tragédia, pelo número elevado de mortos, mas a gente ainda consegue manter o SNS (o equivalente ao SUS) com capacidade para receber doentes.

Me assusta bastante ver as declarações de presidentes como Bolsonaro e Trump zoando das medidas sanitárias absolutamente necessárias para travar um vírus que já matou 271 mil pessoas em todo o mundo (mais de 9 mil no Brasil e mais de 76 mil nos EUA), e que deverá continuar a provocar fatalidades. O comportamento de governantes é sempre exemplo para a sociedade, sobretudo quando tantas incertezas estão em cima da mesa.

Declarações com a da Secretária da Cultura, Regina Duarte, que repercutiram bastante aqui, são de uma insensatez e gravidade com a qual a gente nem sabe lidar. Então, num momento em que a gente aqui está tentando entender como podemos recuperar algumas partes da nossa vida normal, sem colocar em risco a vida de pessoas, por favor, se você me está lendo: fique em casa, se e sempre que puder. Use máscara quando sair na rua. Abuse do álcool gel. Desinfecte tudo aquilo que tenha sido tocado por outras pessoas que não estão partilhando o seu isolamento. E ignore quem diz que isso é uma invenção da media. Não é. As mortes deveriam ser suficientes para fazer acreditar.

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