Portugal: um país onde se morre de frio

Portugal: um país onde se morre de frio

Margarida Vaqueiro Lopes

08 de janeiro de 2020 | 13h54

Em Portugal, quase dois milhões de pessoas não têm como manter as suas casas quentes, devido ao preço da eletricidade. Segundo dados do Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia, 19,4% dos portugueses diz que não consegue aquecer as habitações durante o inverno, por não ter dinheiro para pagar as contas. Os mesmos dados revelam que é o segundo país da Europa onde mais se morre de frio.

Portugal aparece como o quinto pior país da Europa no que a esse indicador diz respeito, e tendo em conta que, em média, somente 8% dos europeus dizem não conseguir aquecer as suas casas. Esse é um cenário que se tem repetido ao longo dos anos, apesar de esses dados, que dizem respeito a  2018, serem ligeiramente melhores que os de 2017 (melhorou de 20,4% para 19,4%). Mas isso significa que são cerca de dois milhões os portugueses que passam frio.

As lareiras também têm os seus perigos, tanto para a saúde como para a segurança dos habitantes da casa

Isso porque as casas, em Portugal, na generalidade, são bastante mal isoladas. Elas deixam entrar a temperatura que está na rua, seja ela muito elevada ou muito baixa. Por alguma razão meio incompreensível, há essa ideia esdrúxula de que Portugal não é um país frio – nas últimas duas semanas, as temperaturas mínimas rondaram os 5ºC, em Lisboa. Mais a norte, na Guarda, por exemplo, elas ficaram pelos 0ºC ou, eventualmente subindo até os 2ºC.

As casas continuam sendo construídas sem recursos a bons materiais, as janelas deixam entrar o frio (ou o calor) e o pior de tudo: a eletricidade é uma das mais caras da Europa. Aliás, por causa disso, Portugal é o segundo país onde mais se morre de frio na região – o que nem faz sentido!

É que, se vocês entrarem na generalidade das casas dos portugueses, vão ver que por norma as pessoas escolhem um aquecedor a óleo ou umas ventoinhas que aquecem rapidamente o ar, opções que consomem bastante eletricidade. No final do Inverno, a sua conta pode ter triplicado ou quadruplicado todos os meses, se você deixar o aquecimento ligado durante todo o tempo que você precisaria para se manter quente.

Num país onde há milhões de idosos, o aquecimento é realmente uma preocupação, porque são pessoas já mais frágeis que não só não têm outras formas de se aquecer, como também não podem comportar os custos da eletricidade. Lembro bastante da minha avó, que continua vivendo sozinha por opção, e que por questões de saúde não pode usar a lareira para aquecer a casa. Para se proteger do frio, ela passa a maior parte do dia na cama, porque a pensão que recebe não permite o aumento da conta da luz que o aquecedor a óleo aceso provocaria.

Mantas, aquecedores a gás e lareiras (mas quase ninguém as tem) são algumas das alternativas aos dispositivos elétricos, mas ainda assim são caros. Os estudantes são outro grupo bastante vulnerável, e mesmo um português de classe média pensa bastante antes de ligar os aquecedores, porque o reflexo na conta da eletricidade é absurdo.

Um perigo para a saúde, uma tragédia para os governantes e uma vergonha para um País que se diz desenvolvido.