Que aconteceu às nossas elites?

Margarida Vaqueiro Lopes

21 Julho 2015 | 10h06

A justiça portuguesa está uma loucura, por esses dias, com todas as notícias que têm chegado do Brasil. Primeiro a informação de que Lula da Silva estava sendo investigado. Depois, a informação de que o Ministério Público português estava cooperando com o Paraná e a investigação do Lava Jato – que pode envolver nomes como o de José Sócrates, antigo premiê português, atualmente preso preventivamente e Ricardo Salgado, o banqueiro do antigo BES.

Mas aí, essa terça-feira, 21 de Julho, Portugal voltou a esquentar com a notícia de que a venda da Vivo à Telefónica e o consequente cruzamento de posições acionarias com a Oi – que teve capital comprado pela Portugal  Telecom, entretanto meio falecida devido, também a negócios ruinosos com o BES – está sendo investigada, tanto em Portugal como no Brasil. Aqui a questão é como os dirigentes políticos terão intervindo no caso. José Dirceu é um dos rostos da operação, onde se suspeita de que tenha havido muitos milhões de euros e reais dados em luvas a governantes, técnicos de topo das operadoras e também detentores de ações das várias empresas.

Para simplificar o discurso, a gente até pode dizer que durante todo esse tempo sempre se soube que muitas dessas pessoas tinham o que a gente chama de ‘telhado de vidro’. Mas vamos conferir: alguém esperava ver tanta gente sendo investigada e até detida preventivamente?

Em Portugal a gente começou a se espantar com a investigação a Ricardo Salgado, sobre a qual já escrevi aqui. Uns meses depois, o nosso antigo premiê foi detido com super aparato no aeroporto de Lisboa, e continua preso. Há poucas semanas, no Brasil, Marcelo Odebrecht e Andrade Gutierrez foram presos preventivamente e a procuradoria continua encontrando provas de que algo de muito errado se passou com muitos negócios.


Aí vem a investigação a Lula da Silva.

Apesar de ser difícil de acreditar que toda essa galera vai dentro por algum tempo, a verdade é que sou uma otimista olhando para o futuro de ambos os nossos países: alguns criminosos estão sendo investigados, e já estão pagando, pelo menos, o preço da perda reputacional e da sensação de impunidade que sempre os caracterizou. Será que estamos, finalmente, mudando para um futuro melhor?

Mas tem uma outra preocupação que me incomoda: são essas as nossas elites? Foi a essas mãos que os nossos países estiveram entregues todos esses anos enquanto nós assistíamos serenos a essa loucura generalizada de favorecimento, propina e aproveitamento de cargos públicos? E que novas elites estamos formando, com esses exemplos? Portugal e o Brasil têm muito mais em comum do que apenas a língua. Têm também uma triste tradição de corrupção e de impunidade que cabe a todos nós – sobretudo às gerações mais novas e bem preparadas – mudar. Rapidamente. Para merecermos o título de elite.