Salvador, meu amor

Salvador, meu amor

Margarida Vaqueiro Lopes

17 de setembro de 2019 | 09h04

Por que eu tenho esse problema de adorar o Brasil, decidi ir conhecer Salvador da Bahia durante a minha ultima passagem por aí. Tinha alguma curiosidade pela cidade, mas nada de incrível. Depois de uma semana ‘morando’ junto do Pelourinho, posso dizer que me sentir uma outra pessoa – sobretudo porque descobri um Brasil que eu não conhecia.

Vista da janela do quarto do Pestana Convento do Carmo. © 2019 Sambando em Lisboa

Foram precisas apenas 24h para entender porque são baianos tantos artistas de renome: a arte em todo o lugar, a arquitetura, a sonoridade do sotaque baiano, a magia da mistura racial que tão bem convive ali. Durante a semana que passei em Salvador me dediquei a conhecer a cidade, os pontos de interesse, a me perder nas ruas, a falar com as pessoas. Quis entender as diferentes culturas, quis conhecer as expressões, as comidas, os temperos. Me perdi na Feira de São Joaquim, e me encantei por saber que as pulseirinhas do Senhor do Bonfim afinal não nasceram naquela cidade. As fitas de Nosso Senhor do Bonfim da Bahia tiveram sua origem – imagine-se! – na cidade portuguesa de Setúbal, a poucos quilómetros de Lisboa. Foram criadas pelas senhoras da nobreza por ocasiões das quermesses e eram feitas em fino algodão e bordadas a fio de ouro.

Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. © 2019 Sambando em Lisboa

A tradição chegaria ao Brasil pela mão dos portugueses que chegaram a Salvador, e foi evoluindo na medida das possibilidades do povo: na falta de algodão fino se usava algodão grosso e na falta de fio de ouro as letras eram pintadas com os materiais disponíveis.
Atualmente, as fitas de Nosso Senhor do Bonfim são uma lembrança a que nenhum turista pode fugir. Cada cor representa um orixá (não é só escolher a sua favorita, não!) e diz a tradição que elas devem ser presas com três nós: cada um representa um desejo que você pode pedir na hora de amarrar. Quando a fitinha se romper, suas preces foram ouvidas e seus desejos se concretizarão. Não é maravilhoso?

Adorei sair para jantar e encontrar o Poró, um restaurantezinho escondido no Largo do Carmo que tinha comida deliciosa, desde os minis hambúrgueres até às várias sanduíches. Ver o pôr-do-sol no [caríssimo] Cafélier, onde aparecem turistas e soteropolitanos. Me perder nas lojinhas de artesanato e aprender mais sobre os Orixás do Candomblé. Ver capoeira nos lugares mais inusitados, descer e subir pelos elevadores da cidade, e sorrir para as simpáticas baianas.

Casa Jorge Amado. © 2019 Sambando em Lisboa

Durante essa viagem conheci também Iglésias, o simpaticíssimo dono do Cuco Bistrô – que passou rapidamente de restaurante a minha sala de jantar durante os dias seguintes. Comida típica sem manias de grandezas, confecionada com muito respeito pela tradição e muita qualidade, sem querer apenas agradar a turistas, cobrando um absurdo por cada prato.. Um lugar onde turistas e locais se encontram e partilham experiências, com um serviço irrepreensível (houve um dia mais movimentado em que foi mais confuso, mas todos foram muito atenciosos) e com comida de elevada qualidade. Decoração típica mas simples, onde os artistas locais ganham espaço, o café é de qualidade e as sobremesas são de chorar por mais. Recomendo vivamente.

Cuco Bistrô. © 2019 Sambando em Lisboa

 

E se tiver tempo, vale também passar pelo centro de artes ABOCA, onde as pizzas bem fininhas farão suas delícias, bem como a simpatia da galera! Isso e a música ao vivo, todas as quartas-feiras. Além disso, o espaço está aberto até tarde, o que é bem legal para quando dá aquele fome de final de noite!

Feira de São Joaquim. © 2019 Sambando em Lisboa

[Infelizmente, não me apaixonei pelo acarajé, apesar de ter provado o famoso Acarajé da Cira, onde uma fila de 15 minutos me garantia que aquele realmente era o melhor lugar para provar – pelo menos foi isso que nos disse todo o mundo a quem a gente perguntou. Mas ainda assim vale pela originalidade do sabor. E entendi finalmente de onde vinha aquele verso “acarajé, acarajé com coca-cola” que Daniela Mercury canta na canção ‘Itapuã @ Ano 2000’]

Poró. © 2019 Sambando em Lisboa

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