As viagens que não faremos

As viagens que não faremos

Daniel Ribeiro

11 de abril de 2021 | 19h51

Em meio ao caos que vivemos, um acréscimo às frustrações diárias é pensar nas férias que não teremos. Ou que, pelo menos, não teremos do modo como gostaríamos. Depois de um ano de pandemia, muitas empresas estão demandando que seus trabalhadores tirem férias, tanto para que não cheguem a uma estafa física e emocional quanto para que não acumulem mais de 30 dias de descanso remunerado. Como planejar essas férias sem poder viajar e sem continuar somente conectado com o mundo por meio das telas?

Ler é um bom plano. Muitas pessoas próximas a mim relatam dificuldade em concentrar-se na leitura. Muitos porque a rotina se tornou mais pesada com a mescla de trabalho e afazeres domésticos sem limites estabelecidos entre um e outro. Ainda assim, a venda de livros cresceu 25% em volume no ano passado.

Minha proposta para suas próximas férias é fazer as viagens que não faremos. Aproveitar para conhecer aqueles lugares que não estarão nos seus roteiros quando tudo isso passar e pudermos voltar a fazer o que a humanidade faz desde sempre: ir de um lugar para outro. Para isso, selecionei alguns livros que podem te ajudar nesta tarefa.

Ilustração de Natália Xavier @despropositos_nataliaxavier

Sovietistão, de Erika Fatland. Editora Âyiné.

Este recém lançado título da editora Âyiné é um relato da jornalista norueguesa, Erika Fatland, sobre uma longa viagem que fez sozinha por países que faziam parte da União Soviética, desfeita em 1991. Turcomenistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão são países que dificilmente estão nos sonhos dos viajantes, até mesmo daqueles mais ousados. A visão ocidental e bastante crítica da autora revela povos da Ásia Central em busca de uma identidade confundida por anos de domínio soviético e ainda sem uma cara completa. Ao longo de mais de 400 páginas, Erika nos leva como companheiros de uma viagem onde enfrenta, entre outras coisas, os desconfortos e riscos de ser uma mulher viajando sozinha por uma região nada habituada ao turismo de massa e, infelizmente, bastante habituada a governos autoritários que ela chama de “Sovietistão”.

 

A volta ao mundo em oitenta dias, de Júlio Verne. Várias edições disponíveis em português.

Publicado originalmente me francês, em 1873, o livro segue ousado. Uma aposta leva o inglês Phileas Fogg e seu criado, Passepartout, tentar dar “A volta ao mundo em 80 dias”. Um clássico da literatura que nos ajuda a sonhar neste momento tão difícil e exalta a ciência já que, sem dar spoilers, é o conhecimento científico que garante o sucesso da jornada. O romance de Júlio Verne é uma ótima pedida para ler em família com membros de todas as idades.

 

Não conta lá em casa, de André Fran. Editora Record.

André Fran, colunista aqui do Estadão, publicou em 2013, o livro com relatos das viagens que realizou com outros três amigos para o programa homônimo no canal Multishow. “Não conta lá em casa” mostrava viagens por destinos polêmicos, como o subtítulo aponta, como Somália, Afeganistão, Iraque e Coréia do Norte. O texto traz relatos dos bastidores e considero uma importante leitura para quem quer entender um pouco mais do mundo fora da nossas bolhas. Apesar dos temas densos, Fran consegue construir um texto divertido em muitos momentos (irônico em outros, que é quase a mesma coisa) e sua escrita nos convida a ser um quinto elemento nas viagens.

 

Crónicas Africanas (em espanhol), de Fernando Duclos. Editora La Parte Maldita.

O livro de 2015 do argentino Fernando Duclos conta sua viagem de quase um ano por 14 países africanos com pouco menos de mil dólares. Ao estilo do livro anterior, Duclos visitou países não-recomendados para turistas pelos mais diversos órgãos internacionais. “Crónicas Africanas” é uma coleção de artigos de um blog que o jornalista manteve durante sua vigem e está disponível apenas em espanhol, por enquanto. Recentemente Duclos lançou outro relato de viagem, desta vez pela Rota da Seda, intitulado Periodistán, alcunha pela qual pode-se encontra-lo nas redes sociais.

 

A Odisseia, Homero. Várias edições disponíveis em português.

O maior clássico da literatura ocidental, “A Odisseia”, de Homero, conta a viagem de Ulisses de volta para casa após a guerra de Tróia. O livro foi considerado por filósofos como Adorno, Horkheimer e Nietzsche como a grande narrativa da identidade cultural ocidental. Para Adorno e Horkheimer, o livro trata da narrativa da emancipação da humanidade que enfrente seus fantasmas históricos para alcançar a iluminação pelo conhecimento. Um clássico que pode (e deve) ser relido muitas vezes e contém camadas de interpretação ainda reveladas até os dias atuais. As diversas versões do poema épico permitem ao leitor encontrar a forma como melhor de identifica com o texto, em verso como foi originalmente compilado, ou em prosa, adaptado por alguns tradutores. A Odisseia é um livro que permite várias abordagens, minha recomendação é: leia. Não importante por onde você comece a viagem, o livro vai te levar mais longe.

 

Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez. Várias edições disponíveis em português.

Um outro clássico mais recente que nos ajuda a realizar viagens que não faremos é “Cem Anos de Solidão”, do colombiano Gabriel García Marquez. O livro nos conta a história de várias gerações de uma família da cidade de Macondo. Macondo é uma cidade imaginada que nos permite também diversas camadas de interpretação simbólica. O livro é tanto uma leitura despretensiosa para conhecer uma história fascinante, como um convite para nos aprofundarmos em seus simbolismos mais subjetivos. O livro é um dos mais importantes representantes do movimento literário Realismo Mágico, que reúne grandes autores latino-americanos.

 

Eu vi Ramallah, de Mourid Barghouti. Editora Casa da Palavra.

O livro de Mourid Barghouti é um dos relatos fundamentais para compreender o século passado (e talvez muito da nossa história como humanidade). O autor retorna à Palestina depois de alguns anos de exílio na Jordânia e Egito e relata as mudanças caóticas que a cidade de Ramallah sofreu nos anos em que ficou fora por conta da ocupação israelense. Wm ” Eu vi Ramallah”, o autor consegue nos levar em uma viagem no tempo em que mescla o que vê no momento em que escreve com suas memórias antigas daquele mesmo lugar.

 

Qual sua recomendação de livro para viajar? Me conte nos comentários.

As imagens desta reportagem é da artista Natália Xavier.

Sou um apaixonado por viagens e por idiomas. Sobre línguas, eu escrevo no Instagram @cursodelinguas.

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