Destinos obrigatórios

Destinos obrigatórios

Daniel Ribeiro

05 de agosto de 2019 | 15h16

Será que  alguns lugares devem ser visitados antes de outros?

Muitas pessoas acreditam que há certos destinos de férias obrigatórios. Uma ex-chefe dizia que não fazia sentido ir para destinos “exóticos” antes de conhecer os clássicos, como Paris, por exemplo. Naturalmente nossas conversas eram cheias de saias justas quando o tema eram as férias. Eu sempre priorizei lugares pouco visitados e sempre pensei que Paris e Nova York sempre estarão lá. Quando comecei naquele trabalho tinha acabado de voltar da Amazônia, que ela sequer tinha a intenção de conhecer um dia.

Também há uma questão de disposição. Muito melhor fazer longas caminhadas e travessias por trilhas, florestas e praias desertas quando estamos mais dispostos e deixar as cidades com mais estrutura e os resort para momentos que queremos mais sossego, ou precisamos de mais organização.

TAJ MAHAL, na Índia. Foto: AFP PHOTO / Ludovic MARIN

No mais, sabe-se que escolhas menos óbvias resultam em efeitos menos evidentes. No mundo corporativo fala-se cada vez mais sobre os profissionais do futuro (que já é presente). Segundo os especialistas, terão mais destaque as pessoas mais habilidosas em comunicar-se e relacionar-se com públicos diversos. A inteligência artificial não será capaz de substituir as habilidades subjetivas que desenvolvemos ao longo da vida. O que isso tudo tem a ver com a escolha do destino de férias? Muito. Se você conhece todos os destinos obrigatórios, conhecerá as culturas hegemônicas e possivelmente acreditará que o mundo todo funciona de uma determinada forma.

Sandra Rossi, fundadora da Verte, conta que as viagens são o método mais eficiente de resolver lacunas de repertório em executivos. A empresa fundada por ela organiza viagens para ensinar a executivos como se relacionar com diferentes culturas. “A Índia é um grande foco das empresas brasileiras, mas o jeito de fazer negócio dos indianos é muito diferente. Sem o conhecimento dessas particularidades fica muito difícil ser bem sucedido nos acordos”, diz Rossi.

Conhecer lugares mais diversos e construir um repertório de experiências pessoais efetivamente pessoais – com isso, quero dizer que ao fazer o que todo mundo faz sem reflexão, engrossamos o caldo da experiência coletiva e não criamos uma história pessoal de fato –  contribui para um mundo com mais entendimento, com mais comunicação e a partir disso se fazem mudanças e também, negócios.

Em tempos em que enfrentamos acentuados conflitos de valores, viajar e se aprofundar em outras culturas ampliam a visão de mundo. Ao mesmo tempo em que questionamos nossos próprios valores, entendemos seu real peso em nossas decisões.  Rossi me contou que para o indiano, “Negociar é um esporte. Então com pressa, não se fecha negócio nenhum por lá”. Compreender os tempos de cada cultura, os detalhes de como comem e em que medida falam da vida pessoal pode ser o fator determinante para o sucesso de qualquer relacionamento. Pessoal ou profissional. E não é preciso ir longe.

A viagem dos seus sonhos pode não fazer o menor sentido para quem está ao seu redor. Uma das mais especiais que fiz foi para Sinop, no Mato Grosso. Levei meu irmão, que é deficiente físico, para visitar um amigo e foi muito significativo. A gente precisa parar de achar que as férias na Europa quando você conhece 18 países em 20 dias são melhores que aquela uma semana na Praia Grande. Muitas vezes as melhores viagens são aquelas em que a maior preocupação é ir do apartamento para a praia e voltar no fim do dia. São nesses momentos que aprendemos os lugares, que conhecemos, de fato, os destinos e as pessoas.

Quando você estabelece muitas regras para sua viagem, acaba esquecendo do mais importante: se divertir, ter prazer e aprender algo. Sobretudo se você trabalha e não tem a menor intenção de largar tudo e correr o mundo, relaxe. Faça viagens que façam sentido para você e não que cumpram com alguma lógica doida que alguns estabeleceram. Se você viaja de férias, sou ainda mais enfático nesse argumento. Você tem 30 dias por ano para agradar a quem? Você mesmo, é claro.

O único destino obrigatório é conhecer o seu lugar. Seja turista onde você more. Essa é a minha viagem.