Não aprendi dizer adeus

Não aprendi dizer adeus

Daniel Ribeiro

12 Fevereiro 2019 | 13h30

 

Mas estou aprendendo. Antes, o adeus era tão difícil que chegava a invalidar os momentos bons que tinha vivido. Quando comecei a viajar com mais frequência, sozinho e com baixo orçamento, passei a me hospedar em hostels, em quartos compartilhados. Mais precisamente em uma grande viagem que fiz em 2009 começou o meu aprendizado “formalmente”. Digo isso porque cresci em uma cultura que valoriza o amor eterno, mesmo que sua incidência seja tão rara quanto a passagem do cometa Harley.  Ouvi desde muito cedo que o bom amor é aquele que dura para sempre, que as boas histórias eram as histórias longas. Então, todo fim era uma tragédia. Dar tchau era quase a mesma coisa que jogar no lixo todos os momentos bons que nos levaram até aquele ponto da história em que o adeus faz-se necessário.

Pôr do sol no Rio Vermelho, Salvador, BA. Foto: Daniel Ribeiro

Voltando a 2009, estava eu desempregado, deprimido e me sentindo o cocô do cavalo do bandido. Foi nessa total falta de perspectiva que encontrei uma passagem aérea em um leilão online e marquei minha ida ao Maranhão. Eu tinha o pouco dinheiro da rescisão do último emprego que chegava em parcelas, mas era possível embarcar naquela aventura. Dividi o quarto com uma única pessoa, um alemão pelo qual me apaixonei e não fui correspondido, embora tenhamos tido conversas profundas, dividido experiências, feito pequenas viagens e caminhado lado a lado em silêncio por horas e chorado de saudade, de emoção, de alívio, de dúvida pela incerteza dos caminhos que a vida seguiria dali em diante. Ele terminava uma longa viagem pela América do Sul e eu mal sabia que estava começando uma intensa rotina de idas e vindas. Fizemos amizade com as outras pessoas dos quartos ao lado e os dias no Maranhão foram festivos.


Ele ia para Recife e eu tinha uma escala lá. Achei um voo possível de Recife para São Paulo em outra data e não tive dúvidas. Viajando somente com uma mochila nada apropriada para aquele contexto, abandonei o avião em Recife e fui rumo a outro hostel onde dois dias depois li o e-mail que ele havia mudado os planos e não nos veríamos mais. Peguei um ônibus para Porto de Galinhas onde planejada chorar minhas mágoas com pouquíssimo dinheiro e muito glamour e sofisticação.

O pior albergue que me hospedei na vida me esperava e apesar da completa falta de estrutura, uma suíça que estava no meio de uma longa viagem pela América do Sul  foi a companhia que transformou aqueles dias. No meu penúltimo dia, ela me diz que adorava a ideia que nunca mais nos veríamos e que aqueles dias eram tão especiais porque eram únicos e não se repetiriam. Nem preciso dizer que tudo o que tínhamos vivido desapareceu da minha memória naquele momento e eu me senti muito mal. Como alguém pode viver tudo isso e não querer mais? Eu me perguntava. Como o alemão não quis me reencontrar ainda que quisesse ser “apenas” meu amigo?

E quando as pessoas iam embora, eu fingia agir naturalmente com ar blasé, como é a moda para tudo agora: sem criar expectativas. Risos. Na verdade eu estava me perguntando por que vivemos algo tão intenso e bom e a outra pessoa estava simplesmente indo embora? Por que ela não me prometeu esforços sobre-humanos para tentar manter um resquício de contato, pelo menos, e prolongar aquela sensação boa? De novo, o mito do amor eterno me tomava. Se foi bom, por que precisa acabar? Viajando a gente aprende que muitas vezes as coisas apenas precisam chegar ao fim, ainda que sejam boas. Talvez seja essa a lição mais dura que as viagens, e as férias de modo geral, têm me ensinado ao longo desses anos. Ainda hoje não é fácil, mas já não é mais tão difícil. E tenho trazido esse aprendizado para a vida cotidiana e, sobretudo, para as relações. De fato, nas relações profissionais essa nunca foi uma grande dificuldade. Provavelmente por eu não ser apegado a empregos, nunca encarei a relação com as pessoas dos lugares onde trabalhei como findadas, eu sempre dei adeus aos empregos e não às pessoas.

Nos relacionamentos, tem sido muito importante para mim não deixar que o fim de uma história invalide a história, ou manche as coisas boas que vivemos. De fato, são despedidas mais doídas, mais longas, mais complexas, mas não cancelam os momentos felizes. Da experiência das viagens, trago para os relacionamentos a ideia de que algo pode ser muito bom, intenso, com muita entrega e ainda assim não ser para sempre.

As férias mesmo costumam ter dia para acabar e mesmo sabendo disso, a desejamos. Recentemente aquele menino francês que passou lama nas minhas costas no mar morto, desceu da van que nos levou de volta e foi embora sem sequer apertar minha mão. Enquanto ele tomava distância, eu pensava: Passamos lama um no outro, tivemos conversas profundas sobre política, religião e preconceitos naturalizados… e foi só isso? Na verdade, não foi só isso, foi tudo isso. Não é simples encontrar alguém que você nunca viu e ter uma conversa profunda sobre seus preconceitos naturalizados e como lidar com você mesmo quando eles aparecem . Não é todo dia que um completo estranho passa lama do mar morto nas suas costas com as mãos trêmulas pela falta de jeito com a intimidade.  Quando a gente está longe de casa, as experiências são todas mais intensas. Eu passei um dia inteiro ao lado de uma americana e um ucraniano visitando a Palestina. Nunca havia visto aquelas pessoas e foi com ela que entrei no lugar onde Jesus nasceu e depois visitamos juntos o museu projetado pelo Banksy e tomamos cervejas refletindo sobre os lugares que vimos, nossas vidas e o impacto que todo aquele dia teria sobre o resto dos nossos dias. Falamos de traumas, de histórias de família, de profundidades que talvez eu hesite em abrir para meus amigos mais próximos. Mas ali, estávamos nós. Ao dizer tchau, fiz com um agradecimento pela intensidade e pela intimidade compartilhadas. Talvez nunca mais nos encontremos novamente, mas o que vivemos naquele dia, vivemos com inteireza.

Ao voltar para a vida cotidiana, meu exercício é manter o olhar atento para o presente e encarar os limites com mais leveza. A gente se acostuma tanto com “o que todo mundo diz” que reflete pouco sobre os reais sentidos de certos rituais, como o de despedir-se. Talvez o adeus não tenha que ser sempre um luto e possa, mesmo que às vezes, ser uma celebração e um muito obrigado.

Para acompanhar minhas viagens e divagações, me segue no instagram, sou @aqueledaniel.