Por que é tão difícil voltar das férias?

Por que é tão difícil voltar das férias?

Daniel Ribeiro

12 de fevereiro de 2021 | 09h32

Playa Ancon, Cuba, 2010. Foto: Débora Costa e Silva.

O não-carnaval chegando e aquela velha história de que o ano só começa depois da festa de fevereiro volta à pauta. Neste momento estaríamos arrumando as malas para viajar, ou nos preparando para quatro ou cinco dias de folga em nossas cidades, de descanso da vida real, do trabalho, dos boletos e, talvez, até mesmo do Big Brother. Mas neste estranho 2021 que sucede o terrível 2020, não. Alguns poderão tirar uns dias para descansar, mas para quem trabalha em casa, ficar nela sem trabalhar se tornou algo estranho. A mesa de trabalho virou a mesa dos encontros virtuais, das festas de aniversário e até do flerte. Viajar ainda não é uma possibilidade viável e os que viajam estão com medo ou culpa. Medo de se expor ao vírus desnecessariamente, ou culpa pelo mesmo motivo. Não está fácil.

A essa altura, meados de fevereiro, nossos corpos já estão fatigados como se o ano tivesse começado há muitos meses. Mesmo com alguns dias sem trabalho na semana de Natal e Ano Novo, pouca gente conseguiu, de fato, relaxar entre 2020 e 2021. E na semana que vem, voltar ao trabalho será mais duro que o habitual. Por que é tão difícil voltar das férias? Se em tempos “normais”, no mundo pré-covid, voltar de viagem era estressante, agora nosso corpo e nossa mente não têm sequer a sensação de ter parado completamente.

Lembro de uns conhecidos que aproveitaram a licença de casamento para viajar de lua-de-mel e voltar no domingo à noite para trabalhar na segunda-feira pela manhã. Antes eu faria isso. Fiz muitas vezes. Aproveitar as viagens até o último minuto. Mas aprendi que voltar é um processo mental lento. Não é chegar. Entrar e sair do modo férias leva tempo.

O cuidado na preparação das férias é quase uma condição à priori para qualquer pessoa. Saber quando e quanto tempo de descanso cada um terá, tentar conciliar os dias com a família ou com amigos para planejar uma viagem em grupo e arrumar as malas são cuidados prévios que tomamos para preparar o corpo e a mente para parar.  Normalmente a volta é feita sem cuidado, não é pensada. De alguns anos para cá, eu planejo a volta das férias com dois ou três dias reservados para assentar os ânimos. Deixar a energia frenética dos passeios baixar e retomar alguma rotina de sono e alimentação. São cuidados simples que podem fazer do retorno algo bem menos trágico.

Especialmente neste ano estranho, planejar as pausas e as voltas pode ser um alento. Já que a diferença entre tempos de descanso e de trabalho podem ficar um pouco confusas.  Para o filósofo Alaim de Bouton, as viagens “expressam como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência”. Quando experimentamos um período de poucas restrições e precisamos voltar para um modo de vida mais limitante, é natural que nossa mente resista e nosso corpo precise de uma dose extra de energia para realizar as atividades rotineiras. Dar um tempo de transição entre as atividades e preparar-se para interromper a rotina sabendo que deverá voltar a ela pode reduzir o estresse pós-férias. Sei que quando estamos prestes a sair de férias não queremos pensar na volta, mas encara a vida como ela é pode ser um alívio ao invés de motivo de sofrimento.

Neste carnaval, se você vai poder parar, aproveite para descansar, mas não se deixe tão solto ao ponto de não conseguir se recompor para voltar na quinta-feira recarregado. Sabemos todos que está difícil descansar, mas cansados também não conseguiremos travar nossas lutas diárias. Se puder, descanse. E proteja a si mesmo e aos que estão ao seu redor.

 

No Instagram, eu me dedico a outra grande paixão: as línguas. Me segue no @cursodelinguas.

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