Viajar é um ato político

Viajar é um ato político

Daniel Ribeiro

09 de novembro de 2020 | 01h47

Meu prazer por viajar e meu desejo de conhecer o mundo inteiro desde criança fez de mim um pacifista. Os viajantes, os turistas assíduos são majoritariamente pacifistas, pois a guerra ou qualquer situação de violência impede os seres humanos de realizarem aquilo que se tornou chave na Declaração Universal dos Direitos da Humanidade: ir e vir. Qualquer pessoa que goste muito de viajar tende a ser um defensor dos Direitos Humanos, ainda que alguns digam o contrário de maneira desinformada.

Quando a gente conhece um lugar, um povo, a gente se importa. Nos últimos dias viu-se uma comoção global com as eleições dos Estados Unidos. Para além da potência mundial, os Estados Unidos são um destino turístico muito sólido. Ao longo dos anos políticos norte-americanos investem para que o país seja um destino desejado pelo mundo todo. E como o país recebe milhares de turistas anualmente, essas milhares de pessoas quando voltam para casa passam a se importar com aquele lugar. De algum modo, os destinos que visitamos passam a fazer parte das nossas vidas.

O ativista pela paz, Aziz Abuh Sarah, diz que para conquistar mais tolerância é preciso haver mais turismo. Para isso ele criou uma agência de viagens especializada em passeios pelos territórios palestinos e israelenses com guias das duas nacionalidades. Eu acredito veementemente que se mais turistas conhecessem a Palestina, a opinião pública sobre o conflito no Oriente Médio seria outra. E não seria mais simples, representando apenas uma mudança de lado, conhecer Israel e Palestina complexifica a tomada de partido. Qualquer solução simples para um problema complexo tende a ser bobagem.  Quanto mais a gente conhece o mundo, melhor entende sua complexidade e mais amplia a nossa visão sobre as possibilidades de solução dos mais diversos conflitos.

Meninos mergulham da ponte no Rio Curiaú, próximo a Macapá, no Amapá. Foto: Daniel Ribeiro

O turismo é uma experiência radical que nos coloca em situações muito distantes para serem pensadas a partir do sofá da sala. O contato direto é a forma mais assertiva de criar empatia. É simples compreender a importância da preservação do meio ambiente, do consumo consciente e da reciclagem. Mas basta uma visita ao projeto Tamar e aquela pessoa nunca mais jogará plástico no chão. O turismo é tão poderoso que o simples interesse em conhecer as ilhas do Pacífico levará o curioso a pesquisar sobre essas ilhas e descobrir a quantidade de lixo que chega nelas pelo mar. E esse turista em potencial nunca mais vai ver o palitinho deixado na areia da praia do mesmo modo.

Se você já foi para o Caribe, todo ano as notícias da temporada de furacões vão te afetar. Viajar é criar afetos, é deixar-se afetar. Quando mais você conhece do mundo, mais você poderá amá-lo. Ao mesmo tempo, mais difícil será receber as notícias das inúmeras injustiças que nele acontecem. As cidades que são destinos turísticos consolidados têm os olhos do mundo voltados para si. E quando algo acontece ali, o mundo todo, de algum modo, vê.

Quando um lugar não atrai o interesse do mundo, quando ninguém considera esses lugares para passar suas férias, parece que mais tolerante ficamos para as barbaridades que possam ser manifestadas ali.

Em 2012, fiz uma viagem para escrever um guia turístico da única capital brasileira que o veículo para o qual eu trabalhava não tinha material: Macapá. A capital do estado do Amapá é a única do país a não ter acesso rodoviário. Só se chega lá de barco ou avião. O isolamento se dá também por ser um dos estados mais pobres do país. Ou seja, poucos brasileiros se interessam em conhecer o Amapá. Essa falta de conexão torna aceitável que o Estado passe uma dezena de dias sem energia elétrica e não haja uma grande comoção a respeito. Mais brasileiros foram aos Estados Unidos que ao Amapá.

O Museu Sacaca possui réplica de moradias de diversas etnias indígenas construídas por nativos. Foto: Reprodução do Facebook do Museu Sacaca/ Manoel Raimundo Fonseca.

Saber que o Amapá está sem luz é saber que todas as pessoas que encontrei na semana que passei lá estão sofrendo. Que os meninos que vi pulando da ponte em mergulhos acrobáticos no Rio Curiaú e hoje já devem colaborar ativamente com o sustento de suas famílias estão sofrendo uma situação inadmissível. Em Macapá eu provei Tacacá, um prato típico da Região Norte, pela primeira vez. Visitei o Museu Sacaca, um dos museus a céu aberto mais interessantes do país, e foi a primeira vez que pisei sobre a Linha do Equador pondo um pé em cada hemisfério. Precisamos falar sobre o Amapá e visitá-lo para integrá-lo ao nosso imaginário, às nossas memórias e às nossas lutas políticas diárias.

O pertencimento está associado à memória. Quando vivemos histórias em um lugar, criamos memória e nos sentimos parte. Precisamos conhecer o Brasil, criar memórias, viver histórias e ser parte. Precisamos rever como escolhemos os nossos destinos de viagem. Viajar é um ato político.

A palestra de Aziz Abuh Sarah pode ser vista no site do TED com legendas em português.

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