Sensações contraditórias durante o sonho
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Sensações contraditórias durante o sonho

Adriana Moreira

23 Abril 2014 | 19h37

Felipe Mortara

Sempre achei que meu coração dispararia quando visse o acampamento-base pela primeira vez. Mas me enganei. Quando avistei o Monte Everest pela primeira vez foi que a mágica se fez. Isso porque, em pleno terceiro dia de viagem, avistar o gigante ao longe te faz sonhar. Imaginar mais ainda.

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Já na tarde do oitavo dia de caminhada eu não aguentava mais ver pedras e muito menos andar por sobre elas. O trecho entre Lobuche (pronuncia-se Lobuchê) e o acampamento-base pode ser descrito com a mais vasta pedreira que a minha mente poderia conceber. Foram mais de 5 horas de trekking bem chatas. E,  quando chegamos a poucos metros de começar a descida para o acampamento, avistei do alto aquele mar de pedras e pensei: é muita ganância do ser humano topar passar dois meses neste lugar apenas para atingir o ponto mais alto do planeta.

Enquanto descia a última meia hora de trilha – sempre subindo e descendo de pedras, algumas maiores, outras arredondadas,  muitas chatas – não tirava da cabeça a inutilidade daquilo tudo. “É o mar de pedras mais glamouroso do mundo.” Até pisar no marco inicial do acampamento-base.

Como se aqueles míseros metros quadrados de superfície mais regular com uma pilha de pedras amontoadas até pouco mais que a altura dos joelhos repletas de bandeiras coloridas enroladas ganhasse vida. Não sei bem se pelo chá quente que alguns sherpas da expedição vieram nos servir ou se pelo simples fim do dia de caminhada ou então por chegar ao principal destino do trekking. Fato é que aquele lugar passou a fazer sentido para mim.

Daquele ponto em diante foram mais quase 40 minutos andando por uma verdadeira cidade de barracas pequenas e tendas mais amplas, a grande maioria amarelas e laranjas. Pareciam formar pequenos vilarejos autossuficientes e independentes. Alguns, menos coletivistas, erguiam pequenas muretas – de pedra, claro. Um fim de tarde com sol tímido mas que insistia em mostrar as caras. E o fazia com pompa, reluzindo em tons azulados por entre blocos de gelo verticais de tamanhos variados que se espalhavam por entre as pedras acinzentadas.

No entanto, antes mesmo de chegar ao meu amplo aposento, já havia percebido que tanto eu quanto as rochas éramos meros hóspedes ali. “Mas as pedras não eram as protagonistas?”, pensará o leitor. Sim, eram até eu perceber que tudo que ali estava – pedregulhos,  barracas, sherpas, alpinistas, turistas, cordas, sonhos,  medos – repousava sobre o imenso Glaciar do Khumbu.

Onde poderia eu imaginar que aquele vale larguíssimo rodeado por montanha imensas como o Pumori (7.161 metros) e o Nuptse (7.861 metros) seria um dos lugares com energia mais forte em que já pisei? E que a Cascata de Gelo do Khumbu – mortal ponto de partida para o ataque ao cume mais alto do mundo, onde pereceram 13 sherpas nesta temporada – seria a primeira visão dos dois curtos, porém intensos e inesquecíveis dias que eu passaria no acampamento base do Monte Everest.