Afinal, já está seguro?
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Afinal, já está seguro?

Fabio Vendrame

25 Fevereiro 2014 | 03h50

Ambulante com motivos nacionalistas – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Cenário: Daniel Nunes Gonçalves

É difícil responder a essa pergunta. Quando desembarquei no Cairo, em dezembro, quase 3 anos depois do desabrochar da Primavera Árabe, encontrei um país vivendo sua rotina normalmente, ansioso por estabilizar a economia e voltar a movimentar a indústria do turismo, principal fonte de renda para 16 milhões de egípcios.

Em quase duas semanas, não vi protestos. Mais de 20 governos tinham retirado as recomendações contrárias às viagens de seus cidadãos, segundo a Autoridade Egípcia para o Turismo, mas os turistas ainda eram escassos. O número de viajantes, 14,7 milhões em 2010, caiu para cerca de 700 mil em 2013; entre os brasileiros, foi de 30 mil para 12 mil.


Tudo parecia se recuperar bem até que, em 25 de janeiro deste ano, no aniversário da chamada Primeira Revolução, a da derrubada de Mubarak (a segunda é de 2013, que levou à queda de Mursi), milhares de pessoas voltaram às ruas do Cairo e se chocaram com a polícia em um conflito que deixou 49 mortos. Depois, a situação normalizou. Só Alá sabe até quando.

De concreto, posso dizer que meu grupo e eu fomos tratados quase como faraós, com todas as atenções e cuidados voltados a nós nas atrações, hotéis, lojas e restaurantes. Visitar a Praça Tahrir e seus murais de grafite foi um desejo dos turistas, e não algo organizado pelas agências . O tour pela Tahrir exige uma sondagem prévia para sentir o clima.

A opção mais segura e prazerosa, até em tempos sem conflitos, é seguir para as cidades históricas do sul, como Luxor e Assuã, para relaxar no Rio Nilo. Deixe de fora a região da Península do Sinai, área com atuação de jihadistas cujos problemas são bem anteriores à Primavera Árabe. Mulheres, como em todo país árabe, viajam melhor se acompanhadas por um homem.

A crise no setor levou hotéis a fecharem suas portas. A inauguração do badalado hotel Ritz-Carlton do Cairo, ao lado da Praça Tahrir, inicialmente prevista para 2014, está temporariamente adiada. Guias tiveram de vender seus camelos, antes oferecidos para passeios no entorno das pirâmides de Gizé, e 40 barcos de cruzeiro pelo Nilo deixaram de circular por falta de turistas.

“Tive de parar com três dos quatro barcos da minha agência até que a situação melhore”, conta o dono da agência Eagle Travel, Nabil Tammam. Ele conta que ofereceu água e banheiro para a população que lotou a Praça Tahrir, perto da sua agência, durante as manifestações recentes.

Camelos à espera de turistas – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Ali perto, a fachada do antes movimentado restaurante do Museu do Egito, agora desativado, era poeira pura. Até a máquina de refrigerantes estava desligada – ali, o número de visitantes diários despencou de 2.500 para cerca de 20. Um casal de jovens malaios que passeou de balão comigo em Luxor no único voo do dia (antes da crise, até 24 balões pontilhavam o céu simultaneamente) lamentou não ter conseguido fazer amigos nos vazios hostels por onde passou.
Os preços, contudo, caíram. Uma refeição simples sai por uns R$ 15. O táxi do Cairo às pirâmides custa cerca de R$ 17.

Nos souqs, continua sendo uma arte pechinchar por qualquer papiro – mas fique atento às falsificações. Um pequeno modelo feito da planta original vale 10 vezes mais que a imitação, em folha de banana, vendido por R$ 30. A vantagem é que, no fim da negociação, se você ameaçar ter desistido do negócio, o vendedor aumenta o desconto para não perder o cliente. Outro estímulo ao viajante é encontrar vazios lugares antes lotados. Não pegamos fila para atração alguma.

É nisso que o governo se apega para trazer de volta os viajantes. “Nós não somos a Síria ou a Líbia”, diz o embaixador Nasser Hamdy, presidente da Autoridade Egípcia para o Turismo. “Os turistas não têm porque temer viajar para o Egito.”

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