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Amazônia para viver

Adriana Moreira

02 Maio 2017 | 03h00

Por Edison Veiga


 

É lilás como o horizonte ao entardecer, tem gosto de tucunaré assado na folha de bananeira, cheira que nem cupuaçu. Faz som de passarinho, de grilo, de cigarra, de bicho correndo para o mato, de peixe pulando. Dá a sensação de sentir a água escorrer pela mão, de sentir o quente Rio Negro e o frio Rio Solimões. Assim é a Amazônia.

Passeio de barco por igarapés

Passeio de barco por igarapés

Este ano assumi o risco de voltar ao mesmo local, no mesmo hotel, no mesmo feriado, seis anos depois de ter descoberto o refúgio chamado Tariri Amazon Lodge – e depois de tê-lo indicado a quase uma dezena de amigos que foram, experimentaram, encantaram-se, gostaram. Risco porque tinha medo de a memória ser melhor do que o fato; risco porque tinha receio de que os anos passados e as experiências posteriores terem me moldado para outros gostos; risco principalmente porque tinha ciúme de encontrar o lugar diferente, para outros, de outro jeito.

Germano Alvarado, o índio peruano que em 2009 começou a construir aqueles chalés sobre palafitas no sonho do hotel próprio é o mesmo homem gentil, amigo, simpático, o mesmo cicerone entendido da mata e dos bichos, o mesmo sábio que parece conversar com o rio entre uma remada e outra. Fabiola Carrazzone, a pernambucana sua mulher, continua uma cozinheira de mão-cheia, milagreira das panelas com os legítimos ingredientes típicos do Norte, da floresta.

Não me arrependi.

Muito pelo contrário.

Voltar ao Tariri tinha um gostinho especial. Desde que Chico, meu filho, nasceu, três anos atrás, entre uma viagem de férias e outra acalentávamos o sonho de mostrar para ele as delícias de um descanso em nossa floresta-símbolo. Se países gringos vieram primeiro a explicação está numa obviedade: queríamos levá-lo para a Amazônia com ele já um pouquinho mais independente no ir e no vir, a fim de que pudesse correr, brincar, interagir com a natureza de uma maneira mais solta, livre, leve.

Chico, aos três anos, foi apresentado à Amazônia 

Chico, aos três anos, foi apresentado à Amazônia 

Desta vez pude conversar mais com Germano. Era como se eu voltasse, afinal, à casa de um amigo, já que nesses seis anos entre uma visita e outra procurei manter contato, por e-mails que sua cunhada recebia no Recife e dava um jeito de retransmitir os recados por telefone – não diretamente ali do hotel, em um braço do Rio Negro, município de Iranduba, uma hora de carro mais 1h30 de barco de Manaus, mas de uma base na cidade mais próxima mesmo.

Germano contou-me mais sobre a história sua, história deles. Ele e Fabiola eram funcionários do finado hotel Ariaú, que nos áureos tempos era o grande símbolo da hospedagem na selva. Lá aprenderam a arte da hotelaria: ele, a ser guia; ela, a cozinhar maravilhas. Conheceram-se, apaixonaram-se, casaram-se. Aos poucos passaram a cultivar a vontade de um negócio próprio e, ainda empregados do hotelzão, construíram aos poucos os chalés rústicos do Tariri.

(Quando lá estive em 2011, soube desta vez, fui o hóspede de número 30 de sua história. Agora, neste doce retorno, meu registro era o de número 1532.)

O Tariri cresceu, ganhou funcionários, mas manteve a essência simples e personalizada. Germano ainda conduz, ele próprio, boa parte dos passeios – todos incluídos no pacote. Leva pela caminhada mato adentro, rema até a comunidade ribeirinha, conduz a pesca da piranha.

Faz pouco tempo, ainda na gestão federal anterior a esta que assumiu ano passado, a luz elétrica chegou ao Tariri. Para turistas, pode parecer menos romântico ter um interruptor à mão e água aquecida no chuveiro – mas, para quem mora ali, Fabiola atestou, a diferença é absurda: há geladeira, afinal.

Nesta volta, admito, quis menos passear e mais descansar. O Tariri me soava familiar. Era como se eu tivesse uma casa minha no meio da selva. Ali, na margem de um braço do Rio Negro, onde o único acesso possível é via barco. Sossego.

Ao mesmo tempo, pude ver Chico brincando, correndo, se esbaldando. Não se entendendo muito bem com os macacos, é verdade: um deles ousou roubar uma bolacha de suas mãos e, imperdoável, um bolo de chocolate de seu prato de café da manhã; o moleque jamais vai superar estas lembranças.

A pequena prainha do Rio Negro em frente ao hotel continua aconchegante. Água quente e limpa, um convite a despreocupados banhos fluviais. O casal de filhos e a sobrinha de Germano e Fabiola cresceram e agora ficam de segunda a sexta em uma casa na cidade, para, adolescentes, poderem prosseguir os estudos. Germano parece feliz. Fabiola, também – apesar de não negar as saudades dos pequenos.

O Tariri segue sempre entre os melhores hotéis de selva segundo usuários do TripAdvisor. Os preços começam em R$ 1.200 por pessoa no pacote de duas noites, com refeições e passeios incluídos.

Eu continuo recomendando aos amigos.

Macaco se exibe nas proximidades do hotel 

Macaco se exibe nas proximidades do hotel 

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