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Aventura no Salto Angel

Tania Valeria Gomes

09 Fevereiro 2010 | 16h03

Nosso incansável viajante aceitou o convite de um velho amigo, hoje gerente do Hotel Guanahani e, para aquecer os ossos enregelados pelo inverno europeu, pousou na ilha de Saint Barthélémy, no Caribe, reduto de chiques e famosos. Refrescando-se nas águas turquesas da Anse des Colombiers e caminhando pelas ruas elegantes do porto de Gustavia, mr. Miles conta-nos que não há ilha menos caribenha naquelas águas famosas. “Não há rumbas, calipso, bandas de metal, tererês ou loiras européias à caça de nativos. E, believe me: bebe-se mais champanhe que rum!”
De uma mesa no Eden Rock, onde pretendia alongar sua noite, o correspondente inglês responde a correspondência da semana:

Mr. Miles: não sou um homem muito viajado, mas já fui à Foz do Iguaçu e nunca vi tamanha maravilha. Afinal, existe queda d’água mais impressionante do que a nossa?
Joel Capelas, por email

No, my friend: as cataratas do Iguaçu são, indeed, as mais belas e breathtaking que eu já vi. Ainda que menores, em extensão e volume d’água que as Victoria Falls, no Zimbabwe, elas provocam um efeito mais arrebatador, dada sua configuração em forma de anfiteatro. No caso de Victoria, trata-se de um corte em linha reta, cujo conjunto só é possível visualizar em um sobrevôo. Quanto às Niagara Falls, well, o máximo que posso dizer é que os americanos as adoram.
De minha parte, tenho especial apreço pelo Salto Angel, a mais alta queda d’água do mundo, que se precipita do alto do Auyan Tepui e, 979 metros abaixo encontra as terras da Grande Savana da Venezuela. Não apenas por sua altura vertiginosa — equivalente a um prédio de 326 andares —, nem pelo estrondo de mil sinos gigantes que produz quando cai na época das chuvas (durante a seca, só uma névoa alcança o solo).
Minha ligação com o Salto Angel é, também, de certa forma, histórica. Conheci Jimmy Angel nos anos 30 do século passado em um pequeno bar em Panamá City. Discorrendo incessantemente sobre o salto que havia avistado pouco antes pilotando seu avião na região, ele, of course, aguçou meu espírito aventureiro. Jimmy planejava voar novamente e pousar sobre o tepui. Consegui convencê-lo a levá-lo comigo na empreitada, lembrando-o que o primeiro provável relato sobre a existência dessa maravilha foi feito, no século 16, por sir Walter Raleigh, um compatriota em busca do Eldora. Em outubro de 1937, com sua esposa Mary e seu amigo Gustavo Heny, fizemos a viagem a bordo de uma pequena aeronave Flamingo. Unfortunately, Jimmy era melhor explorador que piloto e nosso pouso foi um disaster. A área era um charco, o Flamingo chafurdou e tivemos duas semanas de notáveis privações para conseguir descer da montanha até o acampamento de Karamata.
Durante a viagem, however, vi, maravilhado, o salto que iria levar o nome de Jimmy. E voltei, anos depois, em um barco a motor subindo o rio Churún. Ainda alimento a esperança de retornar para esse unbelievable acidente geográfico. Mas confesso que tenho aguardado que mr. Chavez, a essa altura, já tenha se exilado em Cochabamba, onde, com certeza, será muito bem recebido por mr. Morales. Dos destinos que pode ter o meu bowler hat, não antevejo nenhum pior do que vê-lo expropriado por um ditador impulsivo. Don’t you agree?