Bourdain e seu legado viajante
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Bourdain e seu legado viajante

Adriana Moreira

08 Junho 2018 | 17h35

Bourdain e Obama no Vietnã. Crédito CNN

 

Tenho uma lista de pessoas com quem eu gostaria de tomar uma cerveja. Celebridades que parecem boas de papo, com algo verdadeiro a compartilhar fora do mundo de aparências, media training e selfies maravilhosas que se espalha pelas redes sociais. Nada de tietagem: apenas uma cerveja gelada, naquele bar em que o dono é o garçom, o caixa e a alma do lugar, tão genuíno quanto as conversas travadas por ali.

O chef-celebridade Anthony Bourdain, que cometeu suicídio nesta sexta (8),  estava no topo dessa minha lista esquizofrênica, onde figuram ainda os cantores Mike Patton e Cumpadi Washigton, o ex-presidente Barack Obama e o goleiro Marcos (Sócrates também esteve nela por muitos anos).


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Apaixonado por histórias, gastronomia, viagens e rock, era difícil eu não me identificar com Bourdain. Nunca o conheci pessoalmente, que fique claro. Mas gostava de me inspirar na maneira com a qual ele conduzia suas viagens. Havia ali simplicidade e vontade de conhecer algo novo, mas não ingenuidade: lembro de um episódio em que ele não escondeu sua decepção quando sua produção o levou para comer um ovo cozido no vulcão (não lembro onde. Nova Zelândia? Islândia? Se alguém souber, por favor,  coloque nos comentários). Bourdain estava em busca de sabores verdadeiros, nada de “macumba pra turista”.

Bourdain ia do melhor restaurante à comida de rua mais suspeita. Sabia que a essência de um destino está em ambos, já que nada melhor do que provar os sabores para entender a história, cultura, clima e influências de um lugar. “Comida para mim, sempre foi uma aventura”, dizia ele.

O respeitado chef, que teve acesso aos melhores restaurantes do mundo, comeu churrasquinho de uma barraca na Liberdade, sentado numa mesa de armar, ao lado do respeitado chef brasileiro Jun Sakamoto. Foi o mais perto que cheguei dele: frequento essa mesma barraquinha de churrasco desde que era criança (e admito, senti uma ponta de orgulho quando o vi ali em seu programa Sem Reservas – veja um trecho desse programa abaixo).

“Se tem uma coisa que aprendi durante as minhas viagens é que se eu estou sentado numa cadeira de plástico, na rua, e se ao lado tiver um cachorro, isso é um ótimo sinal”, disse ele para Sakamoto, nessa ocasião. E foi ali, exatamente nesse momento, que ele foi para o topo da minha lista. Por que eu não estava na Liberdade nesse dia para compartilhar essa cerveja servida num copo de plástico?

Só houve um momento mais invejável do que esse, para mim: quando ele e Obama dividiram uma mesa num restaurante simples no Vietnã, com um prato de US$ 6. A combinação foi demais pra mim: um país que ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas está no topo da minha lista de desejos (yep, tenho uma dessas também), com DOIS integrantes da minha lista de pessoas para beber junto.

Eis a essência que eu quero levar para minha vida de viajante: os melhores sabores podem estar nos lugares mais simples. Não significa  fechar os olhos para o novo, mas abri-los para o que não é óbvio. Bourdain sempre dizia que odiava hipsters, muitas vezes enquanto tinha de admitir que aquele restaurante hipster onde estava era, de fato, muito bom.

Bourdain se foi, mas espero que seu legado de viajar leve, sem preconceitos e nem estrelismo, seja seguido. De minha parte, farei o possível.

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