Como fazer o chá perfeito, pelas dicas de um inglês
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Como fazer o chá perfeito, pelas dicas de um inglês

Confira as recomendações do representante da 10ª geração da Twinings, tradicional marca inglesa, para você aplicar na sua próxima xícara

Viagem Estadão

21 de maio de 2021 | 12h41

Por Nathalia Molina*

Não era fim de tarde. O ameno inverno de São Paulo sempre me convida a um chá. Geralmente mais à noite. No entanto, inspirada pelo convite para fazer um tour online pela loja em Londres da Twinings, renomada marca inglesa de chá, preparei o meu depois do almoço. Enquanto não dá para fazer turismo até lá, o passeio virtual trouxe ao meu apartamento no meio da pandemia um pouco dessa tradição britânica espalhada pelo mundo.

Temperatura da água e outros detalhes são ensinados na aula na loja em Londres – Fotos: Twinings

“O chá é a segunda bebida mais popular do planeta, depois da água”, disse Stephen Twinings, diretor de Relações Corporativas, que apresentou a história da marca e falou sobre o hábito da bebida. A estreita loja de Londres, no número 216 da Strand Street, tem produtos da marca, um novo bar para degustação da bebida e aulas sobre o tema presenciais (38 libras por pessoa) e virtuais para a Europa (25 libras). A empresa informa que deve lançar em breve a experiência para moradores de países fora do continente.

É considerada a primeira casa de chás secos do mundo, aberta 11 anos depois da fundação da empresa na Inglaterra, que compra folhas e cria misturas desde 1706. Hoje seus blends estão em 115 países, porém ela segue como a fornecedora oficial da família real britânica, direito concedido pela rainha Vitória, em 1837.

Fachada estreita da Twinings da Inglaterra, a primeira casa de chás secos do mundo

Representante da 10ª geração da família, Stephen toma de 10 a 15 xícaras da bebida por dia. Quem poderia ser mais indicado para dicas de como fazer o chá perfeito? “Gosto de começar o dia com um inglês, mais forte. Ao longo do dia, depende do clima, mas pode ser algo mais delicado ou refrescante como um chá verde. À noite, prefiro as misturas com ervas, sem cafeína.”

Aproveitando o conhecimento de Stephen e as recomendações da Twinings para aprender sobre essa delícia centenária, separei algumas dicas neste Dia Internacional do Chá, celebrado em 21 de maio:

A água

Esqueça esquentar de novo aquela que sobrou na chaleira. A primeira recomendação de Stephen é sempre usar água fresca porque contém mais oxigênio. Quando fervida mais de uma vez, a água tem menos, o que interfere no sabor e no aroma do chá.

A temperatura

Isso muda conforme o tipo de chá. Aprendi que sempre bebi meu verde sem extrair o frescor que a planta me oferece. Eu achava que esperar ver as bolhinhas na chaleira, sem deixar a água ferver, fosse suficiente. Só que não, ainda é muito quente. “A temperatura ideal para o verde é 80 graus. Uma alternativa é deixar ferver a água, desligar o fogo e esperar cinco minutos antes de preparar o chá”, explica Stephen. Já o chá inglês precisa de água fervente (100°C) para soltar por completo seu aroma e sabor. O tempo de infusão alterna entre dois e cinco minutos, de acordo com a variedade.

Eu com meu Earl Grey na caneca de Harry Potter – Foto: @ComoViaja

A xícara

Não é exigência aquecer a xícara. Segundo Stephen, isso depende do gosto pessoal. Mas o material do recipiente importa: tem de ser de porcelana ou cerâmica. Não use metal para não alterar o sabor da bebida.

A textura

Se não for um chá de saquinho, veja se as folhinhas estão bem soltas, se estalam entre os dedos. Isso significa que não incorporaram umidade ou sabor do ar ao redor. A presença de alguns botões fechados é positiva. Mesmo para os exemplares de saquinhos, é importante preservar tudo em um lugar mais seco da casa.

Com olhar aguçado, o viajante pode aprender sobre o tipo de chá e a textura das ervas

O tipo de chá

“O chá tem essa maravilhosa característica de podermos adicionar sabores a ele”, diz Stephen. De modo resumido, ele contou que na origem há apenas uma planta: a Camellia Sinensis, que pode virar verde ou preto. As infusões são os chás produzidos com ervas e frutas. E blends são as misturas que podem ser feitas a partir do país de origem e dos tipos de plantas usadas.

O aroma

A partir de 1972, a empresa passou a oferecer combinações herbais. Essas misturas, que levam também frutas, estão entre os mais perfumadas xícaras, na minha humilde opinião. Experimente um framboesa com limão ou um morango com manga e me conte lá no Instagram @ComoViaja. Para estimular seus sentidos, aproxime a fumaça do nariz e faça uma inspiração profunda ou várias curtinhas no estilo cachorrinho – atenção, nada de se queimar!

Aroma e sabor devem ser explorados por quem degusta chás

O sabor

“Ainda que colhendo do mesmo lugar, o sabor pode mudar muito apenas de uma semana para outra. Para conseguir manter a consistência, o master tea taster (especialista em prova) tem de fazer a mistura a cada vez, porque quem bebe determinado chá quer encontrar sempre o mesmo sabor”, conta Stephen. “Recriar a receita de um chá é uma grande habilidade. Exige pelo menos 15 anos de experiência.” O blend mais famoso da marca é o Earl Grey, criado em 1831 por Richard Twinings para o primeiro-ministro Charles Grey, cujo título de Earl Grey (em português, algo como Conde Grey), acabou dando nome ao chá preto com toque cítrico de tangerina.

A hora do chá

“It’s tea time!” Quase dá para ouvir isso ao juntar a ideia de Londres com xícaras e bules. Mas, afinal, a que horas é servido o famoso chá inglês? Para os londrinos, explicou Stephen, às quatro da tarde; mais ao norte da Inglaterra, às cinco. “Tanto faz. Você não tem de se adaptar ao chá, ele é que tem de ser parte da sua vida. O chá tem de ter o seu estilo.” Com isso, tive certeza de que não estava fazendo nenhuma afronta à tradição inglesa ao decidir tomar meu Earl Grey a uma da tarde, em uma caneca de coruja do Harry Potter.

* Sou jornalista de viagem e também escrevo o Como Viaja com dicas e experiências no Brasil e no exterior. Me acompanha no Instagram @ComoViaja para novidades e curiosidades

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