Corpo sujo e alma limpa pelas curvas da estrada de Santos
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Corpo sujo e alma limpa pelas curvas da estrada de Santos

Felipe Mortara

14 Outubro 2011 | 20h06

 

 Ponto de partida: Estação Grajaú da CPTM. / Fotos Felipe Mortara

Felipe Mortara

Quando estava lá pelo quadragésimo quilômetro da Rota Márcia Prado com o vento e a neblina da Serra do Mar no rosto, as gotículas enganando os óculos, e a atenção funcionando à enésima potência para evitar um tombo foi que pensei. Pensei no dia seguinte, de trabalho, de fechamento. E quando pensei, escorreguei. Por pouco não me machuquei. O quadro da bike pegou a canela, bateu, doeu, passei aquele remédio e passou. E ali veio o aprendizado que fez valer a descida de São Paulo a Santos valer a pena. Esteja realmente naquilo que você está fazendo, porque isso faz toda diferença entre chegar ou não.


Realmente é um grande esforço pedalar mais de 80 quilômetros (no meu caso foram precisamente 94 somando a distância até minha casa) entre a Estação Grajaú da CPTM até a Praia do Gonzaga, em Santos. É um passeio que recomendo para todo mundo pela beleza de ver a Mata Atlântica de dentro, mas infelizmente com ressalvas, pois é um trajeto que pessoas com pouco preparo físico em geral não suportam, o que pode comprometer a viagem de todos do grupo. Na volta, é possível embarcar sua bike nos bagageiros dos ônibus  de linha que sobem para a capital paulista saindo da rodoviária santista.

Balsa para a Ilha do Bororé, na Represa Billings.

Saindo às 8h15 do extremo sul da linha Esmeralda da CPTM percorre-se cerca de 8 quilômetros até a represa Billings, onde se apanha a balsa (poucos imaginam que há balsas na capital paulista) para a Ilha do Bororé, simpática vila com cara de cidade do interior e a charmosa Igreja de São Sebastião. Depois mais uma balsa para deixar a ilha, já desembarcando nos limites de São Bernardo do Campo. Daí por diante, são mais quase 20 quilômetros de estrada de terra com subidas e descidas margeando belas paisagens na represa. 

Quando a estrada chega ao fim, sobe-se por uma escadaria improvisada no meio da mata e estamos simplesmente na altura do km 40 da rodovia dos Imigrantes. Depois mais uma pedalada pelo acostamento até o lado oposto da estrada até achar a escondida estrada de manutenção da Dersa – hoje sob concessão da Ecovias. E daí então começar a descida de fato, sob a supervisão de dois atenciosos fiscais do Parque Estadual da Serra do Mar, do Núcleo Itutinga Pilões, que nos escoltaram com motos, um próximo aos líderes e outro fechando nosso comboio de 14 ciclistas.

Ponto de para diante de cachoeira na Serra do Mar. 

Pedalada passa sob diversas pilastras da Rodovia dos Imigrantes.

Não pense que é só ladeira abaixo. O caminho reserva subidas inesquecíveis. Não se culpe se precisar empurrar a magrela em algumas delas. A estrada é repleta de curvas e a visibilidade varia muito. Não passou dos 400 metros quando estivemos por lá, mas a névoa cria um visual incrível e fantasmagórico com as imensas árvores debaixo das pilastras de mais de 100 metros da Imigrantes. Muito chuvisco e lama aparecem até nos momentos mais secos. Não espere concluir o trajeto menos do que imundo.

 Ciclistas reunidos.

Descanso após chegada na Praia do Gonzaga, em Santos.

A chegada ao nível do mar é em um bairro pouco acolhedor de Cubatão e ainda há trechos não amistosos para ciclistas, especialmente os que demandam circular pelo acostamento da rodovia Padre Anchieta. Até chegar ao mar muitos quilômetros esperam o ciclista. E quando finalmente a placa “Bem-vindo a Santos” aparece, ainda é preciso pedalar mais. No momento em que a praia parece ter desaparecido de onde deveria estar. Eram quase 17h30 quando os olhos alcançaram aquele verde infinito, e mesmo não sendo peixe, deu a sensação de chegar em casa. Mergulhos revigorantes, risadas, alongamentos e mais uma história para a coleção.

Dica do Blog do Viagem: Para percorrer a Rota Márcia Prado sugere-se  reservar com cerca de 10 dias de antecedência na direção do parque (pelo e-mail pesm.itutingapiloes@fflorestal.sp.gov.br ou telefones (13) 3377-9154 / 3361-8250, tratar com Vinicius), e assim poder contar com a ajuda dos fiscais do parque, que também dão explicações e auxiliam a fazer o caminho com segurança.