De bodega em bodega – Parte 2
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De bodega em bodega – Parte 2

Adriana Moreira

10 Dezembro 2013 | 05h20

Bodega Trapiche – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

Em Mendoza, entram em cena os malbecs, sinônimos da cultura vitivinícola enraizada no país, e casas fabricantes com estrutura grandiosa para receber turistas

HISTÓRICA

Há uma “pirâmide do Louvre” no pátio entre os prédios da vinícola Trapiche. “Precisa disso?” foi a pergunta que fiz a mim mesma ao detectá-la ali, em meio às construções da primeira década do século 20, restauradas entre 2006 e 2008, que compõem os espaços industrial e turístico da bela bodega.


A propriedade na região de Maipu hoje ocupada pela Trapiche ficou abandonada durante 40 anos no fim do século passado. Comprada pelo grupo Peñaflor, uma das dez maiores empresas vitivinícolas do planeta, ressurgiu como um parque de diversões enoturístico. O começo do passeio, para se ter uma ideia, passa ao lado de um trecho conservado de linha férrea inglesa datada de 1883.

A propriedade tem centro de visitantes com filminho sobre sua trajetória (trapichewines-usa.com/about-argentina). Museu com objetos da antiga bodega que funcionava ali – os tonéis são lindos e a antiga máquina de esmagar uvas, uma ótima curiosidade. Na entrada do galpão principal, o piso de madeira é original, centenário. Foi apenas reenvernizado. Há tonéis de concreto também originais, recuperados do abandono geral do lugar. Pena que falte ali um restaurante.

A bodega apresenta números de respeito: produz 30 milhões de litros de vinho por ano e vende em 70 países. O malbec da linha Broquel é um dos rótulos mais vendidos da Trapiche – o gole da colheita 2011 que experimentei foi dos meus favoritos ali. O torrontés não deixou saudade. Outro malbec, Finca Jorge Miralles da colheita de 2009, opção premium da vinícola, meu paladar entendeu como sisudo e meio pesado, embora a sommelier o descrevesse como frutado e fácil.
E a tal pirâmide, descobre-se lá dentro, é a cobertura de vidro da área de degustação, instalada no interior de três antigos tonéis, com adega e um bonito balcão cercado de banquetas. Como solução para iluminar o espaço, funciona. Esteticamente, em uma última olhada antes de deixar a vinícola, concluí: não, não precisava.

Produção seleta da Finca Decero – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

CENOGRÁFICA

Vistas naquele horário, finzinho do pôr do sol, as fileiras de barricas de carvalho emolduradas pelos picos nevados dos Andes faziam a bodega Finca Decero parecer cenográfica. Só mesmo o frio de congelar as palavras quebrava a sensação de sonho.

A bodega produz entre 400 mil e 500 mil garrafas por ano. Tudo é lindo, da paisagem à arquitetura de galpões baixos, do restaurante à sala de degustações com grandes sofás. O trabalho tem como princípio que o processo seja todo manual, da colheita à seleção de uvas para prensagem. E os vinhos são todos tintos e de vinhedo único.

A novidade da visita foram as informações sobre o solo da região de Mendoza. Porque tem muitas pedras, as uvas malbec ganham notas de violeta. Essa informação, não sei bem se por autossugestão ou porque caiu mesmo a ficha, ajudou muito nas degustações que vieram a seguir.

Sim, o malbec Remolinos 2011 tinha algo de violeta na forma como se espalhava pelo nariz e pela boca. Mas preferi o petit verdot Mini Ediciones 2011. Em linguagem aprendiz, tinha um sabor intenso, sem ser agressivo. E me ajudou a perceber de que se tratava a tal nota de jasmim.

No restaurante da bodega, o jantar de três pratos harmonizado com três vinhos custa 300 pesos (R$ 115) por pessoa. A visita guiada, 50 pesos (R$ 19), com degustação de um syrah (que também adorei), um malbec e um petit verdot. É preciso agendar: decero.com.

Degustação na bodega Trivento – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

SUPERPOTÊNCIA

São 2,1 milhões de caixas de vinho (com 12 garrafas cada) produzidas a cada ano. Mais de 100 países consumidores. Oito fincas, entre as quais a de Maipu, onde está o centro de visitantes, inaugurado em 2012. E uma marca conhecida dos brasileiros, a chilena Concha y Toro, por trás dessa enormidade toda. Com números e referência, fica mais fácil entender a potência vitivinícola que é a bodega Trivento.

O nome tem origem nos três ventos que sopram na região: o polar, o zonda e o sudestada. Essa é uma das primeiras informações do passeio guiado, bem estruturado, a US$ 10 (R$ 23) por pessoa, que inclui degustação de três vinhos e acesso à galeria de arte da bodega, com obras de artistas locais à qual se chega por uma porta grande e pesada que sai lá da cave. Um belo circuito.

Quanto aos vinhos que provei (oito), até meu paladar pouco treinado percebeu que não foram os melhores da viagem. Não que sejam ruins, mas falta-lhes relevância. O rótulo que mais chamou minha atenção foi o Brut Nature, espumante feito de chardonnay e pinot noir, bem docinho. Valeu o esforço do enólogo Germán di Cesare de defender seu processo de produção, chamado de charmat, no qual a fermentação é feita em tanques. Isso explica a falta de… charme, em comparação a espumantes fermentados pelo método francês champenoise, na própria garrafa.

Mas o passeio vale: é possível pedalar entre vinhedos, fazer aula de fotografia ou tango, piquenique. Agende: trivento.com.

O chef sul-coreano Mun Kim pilota a cozinha da bodega Casarena – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

ACONCHEGANTE

Era o quinto dia de intensivão de vinhos e começava a bater um certo cansaço pela grande quantidade de informações a absorver. A bodega Casarena, em Maipu, (casarena.com; 50 pesos ou R$ 19 a visita) surgiu no caminho para acabar com qualquer desconfiança de que passeio em vinícola é tudo igual. A recepção, em uma sala avarandada com jeito de casa do interior, reservava uma surpresa instrutiva e valiosa.

Falante e piadista, o enólogo Bernardo Bossi Bonilla trouxe três garrafas com etiquetas de papel escritas à mão. Começou assim o que ele chamou de “experiência malbec”: degustação de três vinhos dos mesmos vinhedo e safra, mas guardados em barris distintos.

O debate rendeu. No fim, o consenso foi de que o barril de carvalho americano deixava o vinho com pegada mais jovem. O francês, elegante – meio óbvio, mas foi minha opção favorita. O tonel de carvalho romeno resultou em um vinho sisudo e complexo. Este, só no fim da conversa soubemos, o preferido do enólogo.

Ali experimentamos também malbecs tirados dos tanques. Variações do Ramanegra, um dos melhores vinhos da viagem na opinião desta aprendiz. Vimos um corte profundo no terreno feito para mostrar aos visitantes a estrutura do solo da região. Ouvimos uma ligeira história da bodega, criada em 2006 em um prédio de 1937. Tudo solto, sem afetação, agradável.

Por fim, fomos apresentados àquele que desconfio que seja um dos restaurantes mais bonitos do mundo. Todo de vidro, tem salão espetacular com móveis de madeira escura, inclusive uma mesa comunal, e varanda deliciosa. Quem pilota a cozinha é o chef sul-coreano Mun Kim, que mescla Ásia e Argentina no menu. A adega é de cair o queixo. Ali, o enólogo Bernardo guarda uma barrica de um vinho seu, de autor, servido em copos a quem ele tem vontade.

No fim do passeio, a querida bodega ainda rendeu um bordão que não foi, mas poderia ter sido criado por seu enólogo: “ê, Casarena!”, em ritmo de Macarena. / MÔNICA NOBREGA

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