Dias e noites gelados (e incríveis)
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Dias e noites gelados (e incríveis)

Adriana Moreira

23 Abril 2014 | 19h58

Felipe Mortara
Despertar e dar-se conta de que se está na base da montanha mais alta do mundo – o Everest, com seus 8.848 metros – é  uma sensação esquisita. Começa com um frio danado na barraca – os vizinhos disseram que chegou a menos 15 graus  na madrugada. Passa por uma vontade danada de fazer xixi logo cedo. E termina com a cabeça girando 360 graus ao  redor do acampamento, tentando entender o que se está fazendo naquele vale entre montanhas imensas e gelo por todas as partes. (A parte de ter de calçar crocs para sair da barraca eu vou pular).

Acampamento-base: ares de minicidade. Foto: Felipe Mortara/Estadão

Na barraca-refeitório, um café da manha sarado espera a todos. Mas o item mais disputado é o aquecedor. Omeletes e panquecas sao cuidadosamente preparados pelos sherpas da cozinha. O chá é bom sempre e o café surpreendeu dessa vez. O papo não tem erro: sempre ótimo. Dá preguiça fazer outras atividades que não sejam papear naquele ambiente aconchegante, de cadeiras confortáveis.
A programação para a primeira manhã no acampamento-base era uma caminhada (light) no Glaciar Khumbu. Apenas para entendermos a estrutura do glaciar e como começa a Cascata de Gelo do Khumbu (sim, aquela da tragédia). Infelizmente (porque eu sempre quis experimentar) andamos sem crampons – aqueles ganchos metálicos de escalada -, mas com cuidado e apoio dos bastões de caminhada fica difícil escorregar.  Curioso notar trechos em que o gelo é fino, mas não havia gretas profundas ali, para alívio de todos.
As formas que o gelo ganha em estado bruto são impressionantes e muito fotogênicas. Espere só para ver quando essa reportagem sair na edição impressa do Viagem…
Os almoços e jantares, sempre muito bem servidos, eram os momentos mais esperados por todos. Andar de acampamento em acampamento procurando as pessoas para conversar era menos viável do que eu imaginava, já que todos ficam sempre recolhidos. Uma pena.
No jantar acabei conhecendo apenas o Rosier Alexandre, cearense que pretende escalar o Everest para completar seu Projeto 7 Cumes, subindo a montanha mais alta de cada continente. O papo entre ele e Cid Ferrari e Carlos Santalena, foi bem animado e todos participarem.
As noites foram incríveis, com lua cheia surgindo por detrás do Nuptse e do ombro esquerdo do Everest. Inesquecível. A beleza era tamanha que nem dava vontade de entrar na barraca quando todos se despediam da tenda-refeitório. Ficava contemplando cada centímetro do vale iluminado até meu nariz congelar. E como valeu a pena.
 Triste foi saber que um dos sherpas com quem eu mais conversei durante a caminhada no gelo morreria dali dois dias, soterrado por uma terrível avalanche não muito longe de onde andávamos. O clima geral do grupo foi bastante abalado e a montanha parece não querer ser escalada nesta temporada. Até o momento, as informações (raras e difíceis em meio à trilha) dão conta de que as expedições não devem subir este ano, porque o governo e os sherpas não entraram em acordo sobre seus direitos.
O guia de montanha Carlos Santalena  da Grade 6 Viagens e o engenheiro Cid Ferrari continuam no acampamento-base subindo montanhas vizinhas para fazer aclimatação, caso a decisão de tentar o cume seja tomada sob consenso dos sherpas e dos líderes das expedições. Todos no aguardo até dia 28, data limite para a montagem de todos os acampamentos de altitude para esperar as boas janelas de bom tempo de maio.

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