É Luxor, mas pode chamar de sala de aula
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É Luxor, mas pode chamar de sala de aula

Fabio Vendrame

25 Fevereiro 2014 | 03h30

Antigo berço e última morada dos faraós, Tebas descortina no Vale dos Reis o legado de 31 dinastias: de um lado, imponentes construções; de outro, tumbas de soberanos famosos, com Tutancâmon à frente

Templo de Hatshepsut visto do alto – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

LUXOR

É preciso fugir do Cairo para encontrar sossego, e não há lugar melhor que a cidade de Luxor para se iniciar nos mistérios do Egito Antigo – a civilização que teve início em 3100 a.C. e deu início a uma série de 31 dinastias de faraós.
Cortado pelo belo Rio Nilo 670 quilômetros a sul da capital, este verdadeiro museu a céu aberto divide seu “acervo” em dois. Na margem leste, exibem-se os famosos templos de Karnak e Luxor, em meio a hotéis, restaurantes e souqs. O lado do sol poente, por sua vez, concentra o mundo dos mortos em tumbas espetaculares como a de Tutancâmon, descoberta em 1922 no Vale dos Reis. Em ambos os lados, o viajante se sente de volta à sala de aula – mas num fascinante estudo de campo.


Os personagens dos livros de história estão todos lá e suas biografias voltam à memória à medida que a visita evolui. No Templo de Karnak, um dos maiores complexos religiosos do planeta – que começou a ser erguido em 2200 a.C. e foi decorado ao longo de 1.500 anos –, o deus Amun-Ra, considerado o pai de todos os faraós, reproduz-se em formas humanas e também de carneiro, seu animal-símbolo.

O hall principal aglutina 134 colunas que remetem ao berço da escrita no planeta, tanto pela linguagem pioneira dos hieróglifos na parede quanto pelas formas de papiros, plantas precursoras do papel. Um impressionante corredor de 3 quilômetros ladeado por esfinges, cuja restauração ficou ainda mais atrasada depois do início da Primavera Árabe, conecta Karnak ao templo de Luxor.

Templo de Karnak – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

No fim desse corredor, é o rei Ramsés II (soberano entre 1279 e 1213 a.C.), um dos idealizadores dos templos, quem se impõe em duas estátuas sentadas e uma em pé. Impossível não notar, diante da fachada, que o obelisco de granito rosa de 24 metros de altura tinha um irmão gêmeo do outro lado do portal. Ele foi retirado dali como presente para o governo francês, no século 19, e enviado à Place de la Concorde, em Paris, onde está até hoje.

Trata-se de apenas uma das muitas obras de arte egípcias que se espalharam pelo mundo, presenteadas ou saqueadas. Segundo contam os guias, o agrado recebido em troca pelo governo egípcio ficou longe de estar à altura: o relógio francês em estilo rococó chegou quebrado e, embora esteja até hoje na mesquita Mohammed Ali, do Cairo, nunca funcionou.

Templo de Luxor – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Do outro lado do rio, a oeste de Luxor, os personagens da mitologia egípcia são outros. “Quem se lembra de Tutancâmon, o faraó-menino, que viveu por apenas 18 anos e reinou entre 1.336 e 1.327 A.C.?”, pergunta Ashraf Sadek, guia casado com uma portuguesa e profundo conhecedor de nosso idioma. “Em 1922, suas câmeras mortuárias foram achadas com joias, móveis, estátuas, instrumentos musicais e até carruagens, na maior descoberta arqueológica do século 20”, continua, enquanto exploramos o Vale dos Reis, montanha ocre perfurada de buracos que levam a tumbas. Em tempo: os trenzinhos que conduzem da entrada do parque às cavernas, antes sempre com filas de turistas, têm andado às moscas.

Os tesouros do faraozinho foram para o Cairo e compõem a ala mais espetacular do Museu do Egito. Mas restou, no fundo de um longo corredor subterrâneo de Luxor, um dos sarcófagos. E, em carne e osso, o próprio Tutancâmon mumificado. Outras paredes repletas de hieróglifos enfeitam as dez tumbas disponíveis ao público (do total de 63 escavadas), entre elas a de Ramsés IV, recém-aberta.

Pronto para decolar – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Voa, voa. É voando de balão (105 euros por 45 minutos, sindbadballoons.com), ao amanhecer, que se compreende melhor a geografia da montanhosa ala oeste de Luxor. Lá do alto dos 500 metros, nota-se como foram bem camufladas as tumbas do Vale dos Reis, construídas quando Luxor se chamava Tebas e era capital do Império Novo, vigente de 1550 a 1069 a.C.

Quando o sol doura o horizonte, dá para ver também o Vale dos Nobres, o Vale das Rainhas e o dos Trabalhadores. Quem mais brilha na paisagem é o Templo de Hatshepsut, com uma arquitetura clássica única. Para quem cabulou essa aula, Ashraf passa a cola: Hatshepsut foi uma poderosa faraó-mulher que assumiu o trono em função da morte de Tutmés, seu marido e meio-irmão, e governou por 22 anos (1473-1458 a.C.). A maioria das estátuas a mostra como homem, com barba postiça. Quem visitá-la no recomendado museu de Luxor conhece também a versão com peitos. /DANIEL NUNES GONÇALVES, ESPECIAL PARA O ESTADO

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