Em busca da autenticidade de San Marino
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em busca da autenticidade de San Marino

Fabio Vendrame

11 Fevereiro 2014 | 03h00

Sim, você deve começar pelas fortalezas ancestrais e gastar algum tempo com as inúmeras lojas de souvenir. Mas depois, dedique-se a descobrir o caráter excêntrico do minúsculo país

Do Monte Titano, nos Apeninos, a Torre Cesta oferece vista para os ‘castelli’ – Foto: Dave Yoder/NYT

Evan Rail / SAN MARINO
THE NEW YORK TIMES

Os picos recortados dos Apeninos? Vertiginosos. O cintilante Adriático? Azul celeste a turquesa. A cozinha generosa da Emília Romagna? Deliciosa. Tudo isso pareceria uma temporada ideal de férias italianas. Mas, se você estiver desfrutando de uma paisagem encantadora e um ótimo sangiovese na pequena República de San Marino, não comece a falar de como amou viajar para a Itália.


“Somos pequenos, mas totalmente independentes”, disse Sabrina Giancecchi, uma samarinesa que trabalha no departamento de turismo local, quando perguntei sobre a relação de seu país com o vizinho, com o qual compartilha a língua e boa parte da história. “Até os primeiros anos do século passado era muito difícil chegar aqui, em especial no inverno. Agora é diferente.”

De fato, o turismo é um enorme negócio para San Marino, país montanhoso de meros 62 quilômetros quadrados rodeado pelas regiões italianas de Emília Romagna e Marche, e perto da costa do Adriático. Embora a população local seja de 32 mil pessoas, com outras 17 mil vivendo no exterior, os visitantes somam mais de 2 milhões por ano. A capital, Cidade de San Marino, tem uma quantidade exagerada de lojas de souvenir. Mas, por baixo da quinquilharia para agradar estrangeiros, ainda é possível descobrir beleza real e o caráter excêntrico do pequenino país.

Como parte de uma viagem mais longa à região da Emília Romagna, passei alguns dias em busca de autenticidade em San Marino. Em parte, eu tinha vindo para visitar um amigo italiano, Daniele, que havia se mudado para viver com sua namorada samarinesa, Lucia. Mas, antes de encontrá-los (leia abaixo), fui me inteirar da região por conta própria.

Minhas primeiras paradas foram as três torres de vigia ancestrais que definem a silhueta de San Marino, elevando-se acima do Monte Titano. Caminhei pelas velhas muralhas de pedra, entrei na primeira, chamada Guaita, e galguei escadas de madeira periclitantes até atingir o nível superior. Da pequena sala, 19 janelas olhavam para todas as direções. Avistei vários dos nove municípios do país, conhecidos como “castelli” (castelos). E o que teria assegurado sua celebrada independência ao longo dos séculos? Certamente, muitas armas, exemplos das quais encontrei no Museu de Armas Antigas na segunda torre, Cesta. A terceira, Montale, não é aberta ao público.

Segui para o Museu do Estado. Numa parede, um brasão mostrava as três torres e o lema de San Marino: “libertà” (liberdade). Segundo a tradição, a busca da liberdade religiosa levou à fundação do país, quando um cristão perseguido, St. Marinus, se estabeleceu no Monte Titano, no ano de 301. Desde então, as coisas foram substancialmente modernizadas, mas o sistema de governo permaneceu, em grande parte, intocado nos últimos 800 anos.

Sabrina salientara que os dois chefes de Estado – conhecidos como “regentes capitães” – e o Parlamento são eleitos exatamente como eram na Idade Média. Aliás, boa parte de San Marino ainda parece agradavelmente intocada pela modernidade. / TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

No centrinho, comércio se espalha pelas ruas de pedra – Foto: Dave Yoder/NYT

Encontros reais em um lugar delicioso. E suavemente exótico

SAN MARINO

Ao me encontrar com meus amigos Daniele e Lucia, San Marino havia começado a parecer um lugar delicioso, levemente exótico. O que fazer de um país onde o modelo em escala de seu território inteiro cabe num pequeno tampo de mesa, como o que se vê no Museu de História Natural? Onde a Fórmula 1 – o GP de Mônaco – é realizada num país estrangeiro, assim como sua regata anual de veleiros? E os selos postais só são válidos para endereços domésticos?

E ainda há a questão da circulação. Para ver alguém fora da turística Cidade de San Marino, é preciso tomar um ônibus das linhas conhecidas como “domésticas”. Mas, se precisar ir a um dos castelli distantes, também se pode tomar um dos ônibus “internacionais” que seguem o caminho até Rimini, Itália, a 27 quilômetros. Outra curiosidade: após alguns dias no país aprende-se rapidamente a identificar placas de carro estrangeiras porque elas parecem ter números demais. Em San Marino, apenas cinco caracteres abrangem todos os veículos.

Relatei algumas destas observações a Daniele quando me encontrei com ele no restaurante de Lucia, chamado Cacao, no castelli de Domagnano. “San Marino é um lugar estranho”, ele disse com um sorriso. “Nem tenho certeza se é real.”

Quando se trata das lojas de souvenir na Cidade de San Marino, talvez não. Mas, abaixo da superfície, penso que encontrei muita autenticidade. As velhas senhoras de Borgo Maggiore – castelli alcançável pelo teleférico do Monte Titano – eram reais, assim como as paisagens e fortalezas de pedra. O filé mignon na brasa do restaurante Cesare na Cidade de San Marino era pra lá de autêntico. Os passatelli que Lucia acabou de pôr diante de mim – cordões de massa fresca com couve-flor e bocados tenros de peixe – foram alguns dos melhores da viagem.

Tudo isso pareceu muito real. Daniele traduziu o que eu havia dito para um cliente na mesa ao lado. O homem era membro do Parlamento e estava curioso para saber o que um estrangeiro pensava de sua pátria. Em outro país, esse encontro numa pizzaria de bairro seria incomum. Na minúscula San Marino, porém, aonde mais ele poderia ir? / E.R.

SAIBA MAIS

  • Como chegar: o trecho SP–Bolonha–SP custa desde R$ 2.291,24 na Alitalia. De Bolonha, vá de trem até Rimini. A cidade está a 27 quilômetros de San Marino, e há ônibus que saem da própria estação de trem. Mais: visitsanmarino.com.

Mais conteúdo sobre:

San Marino