Etiópia: Destino tem se reinventado nas últimas décadas
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Etiópia: Destino tem se reinventado nas últimas décadas

Fabio Vendrame

15 Abril 2014 | 03h10

Rastafari tem raízes na Etiópia dos tempos de Haile Selassie – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

ADIS-ABEBA

Esqueça aquela cena das criancinhas raquíticas miseráveis com rostos cobertos de moscas. As fotos que denunciaram ao mundo o grave problema da fome na Etiópia, especialmente nos anos 1980, foram tão impactantes que até hoje refletem a imagem que boa parte do planeta tem a respeito desse lindo país localizado no Chifre da África. Nas últimas duas décadas, a Etiópia tem se reinventado. Nesse período, a mortalidade infantil entre menores de cinco anos foi reduzida em dois terços. Sede da União Africana e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, o país é hoje um dos que mais crescem no continente.

“Queremos que turistas do mundo todo descubram que aquela velha Etiópia mudou”, defende Ted Adefris, diretor da Ethiopian Holidays, braço da Ethiopian Airlines. Ainda que não ofereça condições para explorar os safáris, que ajudaram a impulsionar o turismo em países africanos como o vizinho Quênia e a Tanzânia, a Etiópia tem atributos só dela. Entre seus nove sítios identificados como Patrimônio da Humanidade pela Unesco – o maior número de todo o continente –, estão exclusividades mundiais como as igrejas de pedra de Lalibela. “O roteiro histórico do Norte é o que mais tem atraído viajantes, especialmente europeus, mas temos uma infinidade de atrações naturais e culturais que poucos turistas conhecem”, diz Ted.


Para a arqueologia, não há lugar mais essencial para entender a origem humana do que esse ponto do leste africano. Na região de Afar foram localizados, em 2009, os restos mortais de Ardi (Ardipithecus ramidus), nosso mais antigo ancestral já identificado, com cerca de 4,4 milhões de anos. A descoberta superou em importância a de Lucy, a famosa Australopithecus afarensis com esqueleto de uns vinte aninhos, que em 1974 surgiu na mesma região impressionando com seus 3,2 milhões de primaveras. Batizado como Selam, um menino que morreu aos três anos de idade, achado em Dikika no ano 2000, morou na Etiópia há 3,3 milhões de anos. Parte da ossada dos três hominídeos pode ser vista no simplório Museu Nacional, na capital Adis-Abeba.

Um dos únicos dois países da África que nunca foram colonizados (o outro é a Libéria), a Etiópia conseguiu preservar arte, cultura e gastronomia autênticas. A diversidade das tribos etíopes mostra-se evidente especialmente para quem avança país adentro.

Espiritualidade. Sua tradição espiritual também é única e heterogênea. O cristianismo virou religião oficial em 330 d.C., antes mesmo de Roma o fazer. Aqui teria nascido, no século 10 a.C, a notória rainha de Sabá, citada tanto na Bíblia quanto na Torá e no Alcorão. O apóstolo São Mateus, um dos quatro evangelistas cristãos, também teria morrido no país. E até a arca da aliança, aquela das tábuas dos dez mandamentos, estaria abrigada até hoje em Aksum.

A Etiópia é preciosa também para os muçulmanos: o antes chamado Império Aksumita teria sido o destino da primeira migração islâmica da história – a região foi o asilo onde os fiéis de Maomé puderam rezar livremente antes mesmo de o islamismo triunfar na Arábia. Atualmente, Harar é considerada a quarta cidade mais sagrada do Islã (depois de Meca, Medina e Jerusalém).

O Movimento Rastafari, que despontou na Jamaica na primeira metade do século 20, também guarda suas raízes sagradas na pátria onde reinou Haile Selassie, último imperador da Etiópia (1930-1974) e considerado reencarnação do filho de Deus. Nas ruas de Adis-Abeba, é possível ver seguidores do deus Jah vendendo souvenirs com a bandeira nacional, o Leão de Judá, símbolo de Selassie, e as imagens do antigo rei (cujo nome original era Tafari Makonnen), que foram difundidos mundialmente pela cultura pop e pelo reggae. O ritmo e a filosofia dos rastas, no entanto, não são nem de longe tão populares na Etiópia como se mostram na América. / D.N.G.

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