Etiópia: Diga ‘salam’ e explore os santuários subterrâneos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Etiópia: Diga ‘salam’ e explore os santuários subterrâneos

Fabio Vendrame

15 Abril 2014 | 03h50

Templo esculpido na rocha – Fotos: Daniel Nunes Gonçalves

 

LALIBELA

Ainda que as igrejas sejam a principal atração de Lalibela, mesmo quem não se interessa por religiosidade costuma se encantar. Primeiro, porque este povoado de nome simpático está encarapitado no topo de um morro a quase 2.800 metros de altitude – e acessível por um zigue-zague de estradas cênicas. O clima é agradável, os principais hotéis oferecem vistas panorâmicas fantásticas e dá para conhecer a gastronomia nativa sem grandes problemas de higiene. Além disso, o lugar não se rendeu ao artificialismo que por vezes descaracteriza destinos turísticos e conserva a alma de uma autêntica aldeia etíope.


Como em toda cidade pequena, as pessoas se cumprimentam na rua – e não serão poucas as crianças que tentarão praticar o inglês com “hello”, “how are you?” e “which country?”. Responda saudando na língua deles – “Salam!” – e as portas se abrirão. A quantidade impressionante de pessoas usando camisetas do Brasil denuncia o óbvio: futebol aqui é paixão séria, e quem confessa que vem da terra de Neymar encontra anfitriões ainda mais simpáticos.

Com frequência, os meninos pedem gorjetas para comprar uma nova bola para o time. Outros mostram o boletim em busca de ajuda para novos cadernos. E há aqueles que convidam para tomar café na casa deles – o que pode ser uma experiência antropológica interessante por apenas uns trocados.

Família em trajes típicos

Aproveite a luz boa para fotos pela manhã, o incrível pôr do sol por trás das montanhas à tarde, mas evite o calor forte do meio do dia. Ainda que os dois agrupamentos em que se dividem as 11 igrejas estejam a menos de um quilômetro um do outro, não é preciso conhecer todas em um só dia. Cada uma tem sua peculiaridade e vale entregar-se ao ritmo manso do lugar. A mais famosa, de São Jorge, se destaca por não ter coberturas artificiais sobre seu teto em forma de cruz. As proteções contra a chuva, colocadas em 2008 e idealizadas pela Unesco, estragaram um bocado o cenário para as fotos, ainda que pelo bem da preservação arquitetônica.

Entre as igrejas do Grupo Norte, a de Bet Golgotha se destaca pelas esculturas de santos em tamanho real. Se Bet Maryam e Bet Gyiorgis, as “casas” de Maria e São Jorge, foram inteiramente cavadas no subsolo, de cima para baixo, outras como a dos anjos Gabriel e Rafael, já do outro lado do Rio Jordão, no Grupo Leste, foram esculpidas em paredes monolíticas de pedra, ganhando ares de caverna.

Experiência à la Indiana Jones

Caminhar por túneis e fendas estreitos proporciona uma experiência à la Indiana Jones (especialmente em meio à superlotação dos rituais). E os padres e diáconos que atuam como guardiães de cada templo vão sempre parecer posar para fotos – alguns não consideram pecado receber uns birrs de gratidão.

O santuário de Yemrehane Kristos, a 42 km de Lalibela

Instalada em uma caverna de verdade, a igreja de Yemrehane Kristos fica a 42 quilômetros de Lalibela, mas vale a visita de meio período. Mais antiga (consta que foi erguida no século 11) que as da vizinha famosa, a construção que homenageia o rei de mesmo nome exibe nos fundos uma assustadora montanha de esqueletos – dizem que de 10 mil peregrinos que ali morreram.

Chegar ao alto desse vale verdinho requer alguma paciência com os solavancos da estrada de cascalho. O caminho, porém, é responsável por boa parte da graça do passeio. Dá para observar os tukuls, típicas moradias circulares feitas em adobe e cobertas por palha, acompanhar o vai e vem de vaqueiros e pastores de cabras, testemunhar o esforço de quem caminha léguas, às vezes com lenha nas costas, para comprar ou vender produtos no mercado de Lalibela.

Fazendo a feira. Estar na cidade na manhã de sábado, por sinal, é outro must. A grande feira semanal que congrega moradores dos povoados vizinhos mostra a vida como ela é em um típico país pobre da África. Falta dinheiro até para ter uma barraquinha de madeira. Grãos de lentilha, montes de sal e pilhas de alho são dispostos no chão, com um vendedor grudadinho no outro. Vacas e jegues são comercializados no espaço vizinho.

Não será aí, no entanto, que você encontrará souvenirs típicos, como os potes de couro usados como marmiteiras ou as mil variações de cruzes ortodoxas – algumas copiadas com precisão das originais que estão no pequeno museu vizinho à bilheteria das igrejas. Para isso, há algumas poucas barracas no centro de Lalibela.

A cidade oferece uma meia dúzia de bons lugares para comer, seja no gramado da despojada pousada Seven Olives, nos restaurantes de hotéis bacanas como Mountain View e Panoramic View ou em casas de família como a da simpática Sisco Kase, que batizou sua humilde sala elegantemente de Unique.

À noite, quando o calendário espiritual permite, rola música ao vivo no aconchegante Torpito Bar. Mas é no Ben Abeba, no alto de um dos precipícios, que os turistas se encontram para o pôr do sol. O lugar foi idealizado pela escocesa Susan Aitchison e pelo seu sócio local, Habtamu Baye. Susan ali chegou para trabalhar como professora e se apaixonou pelo lugar. “Em Lalibela moro nas alturas, pertinho de Deus.” /D.N.G.

 

Mais conteúdo sobre:

ÁfricaEtiópiaLalibela