Grécia: aura inquieta e ociosa em Salonica
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Grécia: aura inquieta e ociosa em Salonica

Fabio Vendrame

01 Abril 2014 | 03h50

Arco de Galério – Fotos: Thiago Momm


SALONICA

Salonica, alternativa ao estresse ateniense, com nativos que supostamente trabalham em média quatro horas por dia, la dolce vita encarnada, é também Salonica, a inquieta.

Por exemplo, o bar do multiespaço Bord de l’eau (Egnatia, 45), nos fundos de uma galeria comercial, aceso todas as noites. Está na parede: jazz, soul, post, leftfield, astrofunk, future bass e segue, sempre com DJs diferentes. Nos aquários de vidro anexos, alguém da fábrica de design ou do estúdio de comunicação trabalha até tarde. A três minutos dali, o Coo Cafe Bar tem rádio e selo de música próprios. A dois minutos, o Dynamo Project Space, em um antigo depósito, é uma colmeia artística diurna.

O multiespaço Bord de l’eau

Aí está sinalizada, como em vários outros espaços, uma nova Salonica. Em 2014, a segunda maior cidade da Grécia é a Capital Europeia da Juventude. Entre o 1 milhão de moradores da área metropolitana, mais de 100 mil são universitários.

Prefeito desde 2011, Yannis Boutaris, de 71 anos, é mais liberal que muito marmanjo e assusta uma terceira Salonica, visitada pelo apóstolo Paulo em viagem missionária no ano 50, famosa pelas igrejas ortodoxas, religiosa até a raiz. Boutaris apoiou as primeiras paradas do orgulho gay da cidade, tem sete tatuagens, posou de suspensórios sem camisa para uma campanha contra a aids e fala abertamente sobre o seu antigo alcoolismo. De quebra, ataca tabus gregos como racismo, ócio e ilegalidade. Como o uruguaio Pepe Mujica, dispensa regalias oficiais, anda de bicicleta e carro popular. Justo mencionar, em todo caso, que sua família prospera no ramo dos vinhos desde 1879.

Eixo cultural. Salonica já nasceu como caldeirão cultural. Ao ser fundada pelos macedônios, em 316 a.C., reuniu povos de 26 cidades vizinhas. Foram 23 séculos de urbanização contínua. A própria Via Egnatia, onde fica o Bord de l’eau, está ali há mais de 21. Foi construída pelos romanos, que haviam tomado a cidade, para unir as colônias do império entre o Mar Adriático e Bizâncio. Tinha mais de mil quilômetros e importância estratégica.

A ligação com o Mar Egeu via Golfo Termaico também ajudou e, tanto no Império Romano do Oriente como no Turco-Otomano, Salonica só foi menos relevante que Bizâncio/Constantinopla. A partir do século 15, turcos, gregos, judeus e eslavos começaram uma convivência de meio milênio. No final do século 19, circulavam jornais em uma dúzia de línguas.

A cidade sempre foi uma referência cultural nos Bálcãs, mas falar em uma “nova Salonica” faz sentido porque há um arranque óbvio comparado com décadas anteriores. Quando foi a Capital Cultural Europeia, em 1997, o porto passou por uma revitalização e ali surgiram museus de cinema, fotografia e arte contemporânea.

Grafite na Praça Agiou Georgiou

Depois vieram a Bienal de Arte Contemporânea, o Festival de Documentários, o Crashtest (um festival de curta-metragens para jovens diretores, em abril), e espaços alternativos. São de Salonica, aliás, vários dos principais artistas gregos. De resto, segue forte o Festival Internacional de Cinema, que é um dos principais da região balcânica e em novembro alcança a sua 55.ª edição.

Muralhas bizantinas em Ano Poli (parte alta da cidade)

O melhor da cidade está concentrado em bairros vizinhos como Ladadika, Valaoritou, Centro e Ano Poli, estimulando caminhadas e uso de ônibus, táxi ou bicicletas públicas. Existe um metrô em construção, mas tão lentamente que se consagrou como piada.

Uma dica para aproveitar Salonica é simplesmente seguir os nativos. Os cafés ali começam a encher por volta das 16 horas para só esvaziar depois das 20. No happy hour local a palavra café é literal: isso significa que são horas largamente cafeinadas, com pouca cerveja, mesmo nos lugares com música eletrônica e clima de bar.

Do outro lado da rua, “salonifique-se” passeando pelos 4,5 quilômetros da orla, que teve quase metade renovada e reaberta recentemente. Compensando a falta de areia e de banhos de mar, sobram bancos e arborização. A gorda Torre Branca, no meio do caminho, é um dos principais monumentos de Salonica, com seis andares de mostra multimídia sobre a história da cidade. / T.M.

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