Grécia: Salonica tem ares de Vila Madá
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Grécia: Salonica tem ares de Vila Madá

Fabio Vendrame

01 Abril 2014 | 03h40

Terraço aberto com sofás do Le Coq Tail – Fotos: Thiago Momm

SALONICA

“Sob as luzes vermelhas dorme Salonica / Faz dez anos, bêbada, me disseste ‘te quero’ / Amanhã, como então, e sem ouros na manga / buscarás em vão a rua em Dépó”.

Nikos Kavvadias, viajante marítimo à la Conrad e poeta grego, versifica aqui a Salonica noturna para os que chegam pelo Golfo Termaico. Para os que não, um mirante em Ano Poli (na cidade alta) do lusco-fusco em diante não deixa por menos. Na Rua Eptapyrgio, escolha um banco próximo da muralha bizantina, inale um pouco de cenário arborizado e contemple a noite se liquefazendo no golfo.


Até lá embaixo desciam as muralhas construídas por Teodósio (347-395). Tinham oito quilômetros de extensão, dos quais sobra apenas metade. Alguns portões se intercalam a 60 torres da muralha, na maior parte com 10 a 12 metros de altura. A destruição parcial aconteceu entre 1873 e 1911, pelos turcos.

Outros mirantes para contemplar Salonica desde Ano Poli são os bares da Rua Leoforos Ochi. O terraço aberto com sofás do Le Coq Tail é um dos melhores. Dali são no máximo dez minutos de táxi até a Praça Aristóteles, a principal da cidade.
Nela ficam uma cabeçuda estátua do próprio, que nasceu a 50 quilômetros de Salonica, e o edifício amarelo ouro em curva do Olympium, cinema e sede do festival internacional. Dali parte o calçadão que 500 metros depois encontra a Via Egnatia.

Salonica termina de convencer você – e faz com que você puxe a manga do seu amigo grego para elogiar a cidade, caso tenha um – em Ladadika. Ah, Ladadika! Algo como a carioca Lapa, a paulistana Vila Madalena, a madrilenha Malasaña. Algo como, mas muito ela mesma.

Antes que o incêndio de 1917 devastasse grande parte de Salonica, era a principal área comercial. Depois restaram apenas os comerciantes de azeite de oliva e os prostíbulos, refletidos na música de Filippos Grapsas: “o que você quer eu te dou / em Ladadika vendem o que você quer”. O bairro passou a ser renovado na década de 1980 e hoje é uma profusão de vielas enfeitadas e coloridos bistrôs com mesas ao ar livre, a leste da Avenida Tsimiski; e onde o público de 20 e poucos anos se inquieta entre bares e clubes, à oeste.

Ágora romana

Sem lista. Uma das vantagens de Salonica é fazer esquecer o turismo check-list. Não pela falta de pontos de interesse. Além dos mencionados até aqui, há outros ainda mais visitados: os ligados à ocupação romana (Arco, Palácio e Rotunda de Galerio, além da Ágora); as igrejas ortodoxas (São Demétrio e Santa Sofia); e os museus arqueológico e da cultura bizantina.

O lindo, porém, é que as atrações, além de serem próximas, não têm fila nem pedem visitas de horas. Três dias em Salonica já permitem ver muito sem pressa, fruindo um pouco a vida local. Faça isso e almoce num dos restaurantes típicos do Mercado Modiano. Ou, a uma quadra dali, prove um tsoureki de chocolate ao lado dos velhinhos faladores sob os guarda-sóis do café Terkenlis (Ermou, 77).

Atmosfera dos bares e cafés da orla

À noite, tenha outro momento insider entre os quadros de escritores gregos famosos, os fumantes (na Grécia pode), os 92 tipos de cerveja e 99 de café, as estantes de livros incompreensíveis e o gamão no mezanino do bar de fauna artística Kafodio Elliniko (Ioustinianou, 3). Ao vivo a partir das 22 horas, rock, quase sempre grego, ou blues. / T.M.

Torre Branca, um dos símbolos da cidade

NÃO PERCA:

1. Bares: siga pelos bairros Ladadika ou Valaoritou. Não deixe de ir ao Buba Mara (Vaiou, 7) com cozinha balcânica e 17 rótulos de cervejas checas. No Bit Bazaar, as lojas de antiguidades viram bares após as 17h

2. Cafés: a principal sequência fica na orla, entre a Torre Branca e a Praça Aristóteles. O Akillion e o Esatto se anunciam como “drinque bar”. O Termaico toca eletrônica leve e tem mezanino reservado. O Garçon Brasserie oferece silêncio

3. Eventos: Capital da Juventude em 2014. Confira a programação

4. Clubes: no Trois (Rogkoti, 3), há música eletrônica grega. O mais upscale é o Markiz (Navarchou Kountourioti, 6)

5. Ficção: a best-seller inglesa Victoria Hislop ambienta em Salonica O Fio (Ed. Intrínseca, R$ 29,90). Busque filmes de Theo Angelopoulos

6. Igreja: patrimônio da Unesco, a Agios Demetrios, do século 4.º, homenageia São Demétrio, patrono da cidade

7. Museus: o mais famoso é o Arqueológico. E não perca o da Cultura Bizantina 8. Restaurantes: em Ladadika, o Full Tou Meze (Karouni, 3) é uma enciclopédia culinária grega. Intimista, o Paparouna (Paggaiou, 4) é bom para casais

9. Romanos: o legado do imperador Galério está no Arco, Palácio e Rotunda. Complete o passeio nas ruínas da Ágora Romana

10. Torre Branca: em busca de hiperdoses de história? Visite o site da torre

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