Ilhas Virgens Britânicas: uma visita um ano após o furacão Irma
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Ilhas Virgens Britânicas: uma visita um ano após o furacão Irma

Viagem Estadão

07 de fevereiro de 2019 | 05h00

Grande atração das Ilhas Virgens Britânica, The Baths reúne paisagens intrigantes. Foto Felipe Mortara

Por Felipe Mortara, Especial para O Estado

Já havia mais de um ano desde que o furacão Irma devastara o arquipélago das Ilhas Virgens Britânicas. Mesmo assim, o assunto surgia facilmente com o motorista do táxi, a recepcionista do hotel e a garçonete do restaurante. Basta um simples deslocamento pela capital Road Town, na ilha de Tortola, para entender o tamanho do estrago. A estrada principal não tinha bom asfalto, mas pelo menos não estava obstruída. Dessa forma, a vida fluía e tive a certeza de que o turismo retomava seu papel de motor econômico do arquipélago caribenho.

Apesar das dezenas de veleiros com mastros quebrados e outros tantos virados ou afundados, o cenário era muito diferente do que o de setembro de 2017. Junto com Saint Martin e Saint Barthelémy, o arquipélago foi um dos mais afetados por ventos de até 298 km/h. A comunicação custou a ser restabelecida e durante meses faltaram água e luz. As marcas da tragédia ainda seguem por lá, com tetos arrancados, árvores quebradas e barcos danificados. Mas nas Ilhas Virgens Britânicas (ou simplesmente BVI, na abreviação em inglês) o clima é de renascimento. E aí mora uma beleza incrível.

Muito já foi feito desde que a tempestade passou. Nada de barcos obstruindo as vias, boa parte dos centros comerciais sendo reconstruídos e muitas casas em processo de reforma. A estrutura turística também se reergue em ritmo acelerado e não é à toa. Quem é dali e quem já foi sabe muito bem do potencial. De praias para descansar, de bons ventos para velejar e de excelentes pontos de mergulho. Tudo o que boas férias ao mar demandam.

Reconhecida por muitos como uma das mais belas do mundo, a Praia de Devil’s Bay é, paradoxalmente, divina. Foto Felipe Mortara

Senti que a maior parte da população está orgulhosa por estar tocando a vida adiante. Assim, o comércio e os serviços na capital Road Town vão aos poucos reabrindo as portas. Paira um clima leve e despojado, típicos dos velejadores, boa parte americanos, muitos dos quais voltam todos os anos. Apesar do nome, a moeda local da Ilhas Virgens Britânicas é o dólar americano e o jeito mais fácil de chegar é voando até Miami, de lá por mais duas horas até Porto Rico e por mais 40 minutos com a pequena companhia InterCaribbean até o aeroporto de Tortola.

Dormir no balanço do mar

Já não há medo nem tristeza no ar, só aprendizado, otimismo e serenidade. Também, com o baita mar azul que envolve as mais de 50 ilhas e ilhotas do arquipélago é fácil recuperar a calma. Há bons hotéis para quem quiser ficar em terra firme, mas o grande barato de tirar férias por lá é peregrinar a bordo de um veleiro entre elas. Ou então, uma opção muito comum, dividir metade da viagem embarcado e metade em terra.

Ficar a bordo de um confortável catamarã é uma das boas opções de hospedagem em BVI. Foto Felipe Mortara

Com navegações curtas, pontos de ancoragem fáceis em cantinhos magníficos e desertos, as BVI são o maior polo de aluguel de veleiros do Caribe. Mas não se preocupe, não é preciso ser velejador experiente para embarcar num veleiro e encontrar uma ilha para chamar de sua. Várias operadoras, como a Moorings e a Sunsail, oferecem saídas customizadas a partir de duas noites com capitão e cozinheiro incluídos. Daí é só embarcar em um entre os 300 confortáveis catamarãs e veleiros de um casco que repousam em bem arranjadas marinas. Sempre novas, as embarcações têm de 38 a 58 pés (11,5 a 17,5 metros) de comprimento, com até cinco espaçosas suítes e regime all-inclusive opcional.

A melhor coisa de velejar é poder fazer duas ou três paradas a cada dia. Os capitães sabem onde estão os melhores pontos, mas tudo é negociável e a cada dia você pode decidir para onde ir. A maior variável é a vontade dos passageiros. A hora de comer, as preferências de menu e de bebida, tudo ao seu critério. O clima é super leve, os marinheiros são super educados e simpáticos, por vezes parecem fazer parte do grupo de amigos.

Um bom exemplo da cor do mar está na praia do hotel Scrub Island. Foto Felipe Mortara

Ainda que você possa querer passar o tempo todo na sua praia preferida, saiba que há atrações muito famosas e quase imperdíveis. The Baths é o ponto mais famoso de Virgin Gorda e recebeu esse nome por ser aonde escravos eram levados para se banhar. Uma trilha em meio a imensos blocos de granito que formam grutinhas traz como recompensa a pequenina praia de Devil’s Bay. Dizem que já foi eleita uma das mais belas do mundo. Não é difícil concordar. Em águas mais abrigadas, caiaque e stand-up paddle são sempre boas alternativas.

Claro, você não é obrigado a ficar apenas embarcado. As principais ilhas – Tortola, Virgin Gorda e Jost Van Dyke – contem com ótimas opções de hospedagem. Praticamente não existem grandes redes, mas pequenos e exclusivos hotéis-butique, além de villas mais exclusivas. Muitos ainda se recuperam do Irma, porém a grande maioria reabriu as portas na temporada que começou em novembro e segue até o fim de agosto. Na lista de ilhas com hotéis exclusivos estão Scrub Island, Necker Island e Cooper Island.

Paraíso dos mergulhadores

Sob as águas as Ilhas Virgens Britânicas, um patrimônio de (com o perdão do trocadilho) tirar o fôlego.  Poucos lugares no planeta concentram tantos naufrágios e pontos de mergulho de altíssimo nível. Em 1867, o navio RMS Rhone afundou em Salt Island com 145 passageiros a bordo (123 pessoas morreram). Hoje, no entanto, se transformou em um jardim deslumbrante de corais coloridos, que cresceram sobre as ferragens, repletos de peixes e tubarões. Além disso, praticantes de snorkelling se divertem nos majestosos jardins de gorgônias de Diamond Reef e nas intrigantes grutas de Norman Caves.

No fundo do mar se escondem belezas incríveis em alguns dos melhores naufrágios do Caribe. Foto Felipe Mortara

Por falar em Norman Caves, as cavernas submersas receberam este nome porque acredita-se que o Capitão Norman, famoso pirata, teria escondido um tesouro por ali. Lendas sobram e história – comprovada – não falta.  Cristóvão Colombo resolveu batizar o cenográfico arquipélago com o excêntrico nome de Santa Úrsula e as 11 Mil Virgens. A partir de 1632, os holandeses a colonizaram e passaram a extrair cobre. Quase 40 anos depois os britânicos os expulsaram e estabeleceram produtivas plantações de cana na região com escravos trazidos da África – a abolição só veio em 1834.

Os ingleses ainda continuam por lá, sob o regime de território ultramarino. Mas desde os anos 1960 a região virou um xodó de velejadores, com cada vez mais visitantes.

Gastronomia e drinques

Excelentes drinques e boa gastronomia internacional o esperam entre a rotina de desembarques e navegações. Obviamente a culinária local se baseia muito em peixes e frutos do mar frescos. Em Road Town, o Pusser’s é um bar com ares de pub, com mais de 40 anos de tradição. Já em Virgin Gorda, o Coco Maya mescla toques mexicanos e asiáticos com uma vista absurda do pôr do sol. Perto dali, o Foxy’s tem simpáticos rastafáris tocando reggae e faz a festa de réveillon mais disputada da região.

Antigamente, para alcançar o Soggy Dollar Bar, em Jost Van Dyke, os veleiros ancoravam próximos à Praia de White Bay e os ocupantes nadavam até a areia. Chegando lá penduravam suas notas encharcadas para secar num varal. Foi ali que, nos anos 1970, nasceu o Painkiller, drinque símbolo do arquipélago, feito com rum, suco de laranja, de abacaxi, água de coco e noz-moscada. No paladar e na visão da belíssima praia, você não se esquecerá das Ilhas Virgens Britânicas.