Irlanda do Norte: em Belfast, muro ainda separa católicos e protestantes
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Irlanda do Norte: em Belfast, muro ainda separa católicos e protestantes

Fabio Vendrame

08 Abril 2014 | 03h20

Murais viraram marca registrada da cidade – Fotos: Ana Carolina Sacoman/Estadão

BELFAST

A história de Belfast está intimamente ligada à eterna divisão entre católicos e protestantes no país. Segundo o censo de 2011, a capital é quase que igualmente dividida (48% dos seus 275 mil moradores são protestantes e 45%, católicos) e ainda hoje há bairros exclusivos para cada grupo religioso, separados por um muro que lembra o de Berlim. Não há ligação de ônibus entre as duas áreas, que não se misturam nem mesmo nas escolas. O centro da cidade é o único lugar considerado “zona mista”.

Os conflitos entre os grupos, chamados the troubles, começaram em 1969 e, até 2001, a estimativa é de que 3,5 mil pessoas morreram no país. Naquele ano, a população católica passou a reivindicar direitos civis em manifestações reprimidas com violência pela polícia unionista. A reação veio por meio de grupos paramilitares protestantes, que sabotaram represas e instalações elétricas.


Começava a escalada do conflito. Os católicos criaram áreas liberadas, controladas pelos militantes armados do Exército Republicano Irlandês (IRA). No começo dos anos 1970, o protestante conservador Brian Faulkner adotou a estratégia das prisões em massa e sem ordem judicial para enfrentar os motins católicos, o que só fez multiplicar as adesões dos católicos ao IRA.

A Inglaterra enviou mais tropas para a ilha e uma dessas matou 13 civis desarmados em uma manifestação em Londonderry – o episódio ficou conhecido como Domingo Sangrento, aquele da música do U2 (Sunday Bloody Sunday). A reação inglesa foi dissolver o parlamento da Irlanda do Norte, assumindo diretamente o governo do Ulster. As áreas liberadas foram invadidas pelo Exército britânico. O IRA multiplicou seus ataques e passou a golpear também na Inglaterra: em 27 de agosto de 1979, integrantes do movimento assassinaram Lord Louis Mountbatten, primo da rainha Elizabeth II e herói da Segunda Guerra Mundial.

Ao mesmo tempo, os paramilitares protestantes assassinavam católicos no Ulster e bloqueavam qualquer negociação que significasse a concessão de direitos aos católicos. No começo dos anos 1980, o IRA mudou de estratégia: seus militantes começaram uma série de greves de fome. O governo de Margareth Thatcher não cedeu. Em 6 de maio de 1981, Bob Sands morreu após 66 dias de greve. Depois dele, outros nove militantes também morreriam.

Na década passada, após 30 anos de conflitos, o governo inglês selou um acordo entre os dois lados, o que permitiu a reconstrução de um governo de protestantes e católicos. Por decisão britânica, o Ulster continua ligado à Grã-Bretanha enquanto sua população quiser.

Mas a tensão continua. Em janeiro de 2013, 29 policiais ficaram feridos durante confrontos entre católicos e protestantes depois que o governo resolveu não mais hastear a bandeira britânica na prefeitura de Belfast. A história, dos dois pontos de vista, está estampada em murais pela cidade. / A.C.S. e MARCELO GODOY

MURAIS

Família real britânica
Os murais de Belfast começaram a ser pintados no começo do século 20. Viraram marca registrada da cidade e forma de expressar preferências políticas e religiosas dos donos das paredes. Como praticamente tudo por lá, as pinturas de católicos e protestantes são como água e vinho. Os do lado protestante costumam trazer homenagens à família real

Sands, Chávez e Cuba
Segundo moradores de Belfast, os murais estão entrando em “processo de extinção”. Mas há muito ainda o que ver, especialmente os desenhos católicos, geralmente de cunho político. Trazem homenagens a Bob Sands, militante que morreu em greve de fome, e até a Hugo Chávez e ao governo de Cuba

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