Irlanda do Norte: uma desbordante terra de gigantes
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Irlanda do Norte: uma desbordante terra de gigantes

Fabio Vendrame

08 Abril 2014 | 03h30

Rota cênica, ao norte de Belfast – Fotos: Ana Carolina Sacoman/Estadão

BELFAST

Qual foi a última vez em que você se surpreendeu com um lugar? A minha foi com Belfast, sem dúvida. Não sabia muito bem o que esperar da capital da Irlanda do Norte quando cheguei lá. Imaginava uma cidade assim meio cinzenta, sem graça, não sei muito bem por quê. Bem, o que eu vi foi exatamente o contrário: uma cidade cheia de gente simpática, fácil de se localizar e com boas atrações também nos arredores. E acho que o melhor jeito de se simpatizar com a região é colocando o pé na estrada bem cedinho.

Ao norte de Belfast, a rota cênica, à beira-mar, é coisa de filme mesmo. Penhascos, campos, praias, castelo, mais penhascos, um vilarejo fofo com restaurante sensacional e por aí vai.


Uma das atrações mais conhecidas do país é o Giant’s Causeway, ou “calçada do gigante”, uma paisagem de pedras muito louca, formada há 60 milhões de anos, após uma erupção vulcânica. Em contato com a água do mar, a lava se resfriou rapidamente, um cenário único no mundo. O lugar ficou superconhecido depois de aparecer na capa do disco Houses of the Holy, lançado pelo Led Zeppelin em 1973.

A curiosa paisagem de pedras à beira-mar de Giant’s Causeway

As pedras, hexagonais, parecem favos e as colunas formadas por elas alcançam até 6 metros de altura. Se o tempo estiver bom, o vento não muito forte e o mar, tranquilo, é um lugar para se esbaldar e fazer muitos selfies. Muita gente vê formatos nas rochas, como a “harpa do gigante” ou a “bota do gigante”. O lugar ganhou o título de Patrimônio da Unesco em 1986. Há café, banheiros e lojinha temática no centro de visitantes.

A lenda local também é legal. Um gigante chamado Finn MacCool queria enfrentar outro gigante, o escocês Benandonner, mas não havia um barco com tamanho suficiente para atravessar o mar. MacCool resolveu o problema construindo uma calçada que ligava os dois lados, usando enormes colunas de pedra. Benandonner aceitou o desafio e usou a calçada para ir à Irlanda. Ele era mais forte do que o irlandês.

Percebendo isso, a mulher de MacCool decidiu vestir o marido como um bebê. Quando o escocês chegou à casa deles e viu o porte da “criança”, pensou: “Se o bebê é desse tamanho, imagina o pai!”. Fugiu correndo para a Escócia. Para ter certeza de que não seria perseguido, destruiu a estrada, restando apenas as pedras que estão lá até hoje.

Balança, mas… Dali, ou antes de chegar ali, os visitantes passam pela Carrick-a-Rede Rope Bridge, ponte de corda feita por pescadores para ligar a costa da Irlanda do Norte à ilha de Carrick-a-Rede, onde há um pesqueiro de salmão. Os visitantes podem atravessar a estrutura de 20 metros de largura, a 30 metros do mar. A impressão é de que balança muito e deve ser emocionante, mas não sei: no dia em que fomos ventava tanto que a travessia teve de ser fechada, por ser realmente perigosa.

Mesmo assim, não é hora para se decepcionar. Continuando pela rota cênica da costa você vai parar no Dunluce Castle, uma construção de pedra literalmente à beira do abismo. Isso é que é gostar de um perigo. Os vestígios mais antigos do castelo datam de cerca de 1.500, quando foi erguido pelos poderosos MacQuillans.

Dunluce Castle foi alvo de disputas ao longo da história

Cinquenta anos depois, eles foram expulsos pelos MacDonnells, família que basicamente arrumou confusão com meio mundo, incluindo a Coroa inglesa. Em 1584, a rainha enviou forças a Dunluce e o castelo foi tomado. Dois anos depois, a propriedade voltou para os MacDonnells, mas a trégua durou pouco e outras rebeliões se seguiram, com o apoio da família, que perdeu e recuperou a propriedade inúmeras vezes.

Em 1665, o clã finalmente se mudou de lá e o lugar foi gradualmente reduzido a ruínas. Em 1928, passou para as mãos do Estado. Inventário dos bens existentes no castelo, datado de 1651, listava tapetes persas, cadeiras com estofado de seda e móveis luxuosos.

É difícil hoje ver as ruínas e imaginar esse luxo todo, mas a construção não perdeu sua imponência. É possível ver, por exemplo, a Casa da Cerveja, onde a produção para consumo próprio era fabricada; estábulos com plataforma para ajudar a montar os cavalos, e alojamentos para visitantes. Uma ponte de madeira, que originalmente seria levadiça, liga esses lugares à parte principal do castelo.

Enfim, debruçado sobre falésias, é lugar para um álbum inteiro de fotos. No centro de visitantes, há livretos com informações em português.

Parada estratégia para saciar o apetite

Entre uma atração e outra, o The French Rooms, aberto há menos de um ano na avenida principal de Bushmills, é uma parada esperta quando a fome apertar. O lugar pode causar estranheza com seu estilo provençal-fofo em meio a histórias de castelo, lutas e pedras, mas você não vai se arrepender. O cardápio é supersimples, com lanchinhos e crepes, doces e salgados. Boa desculpa para fazer uma pausa nesse roteiro cheio de testosterona. / ANA CAROLINA SACOMAN

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