Memórias esparsas do reino de Cleópatra
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Memórias esparsas do reino de Cleópatra

Fabio Vendrame

25 Fevereiro 2014 | 03h10

Resista à ideia de ver Alexandria num bate-volta. A metrópole portuária compensa a ausência de seu farol-maravilha com uma biblioteca de vidro nova em folha e bons (e raros) frutos do mar

ALEXANDRIA

O famoso farol de Alexandria, que já foi uma das sete maravilhas do mundo antigo, não está mais lá, impressionando com seus 150 metros de altura – uma proeza no ano de 280 a.C.. Tampouco existe a famosa biblioteca original, maior centro cultural do mundo entre os séculos 3º a.C. e o 4º d.C., que começou a virar cinzas em um incêndio acidental provocado pelo romano Júlio César em 48 a.C.. Ainda assim, a segunda maior metrópole do Egito continua atraindo curiosos em pisar naquela que foi uma das mais importantes cidades da História.


Se lhe oferecerem um bate-volta a partir do Cairo, como aconteceu comigo, pule fora. São praticamente três horas para ir e outras três para voltar por 220 quilômetros de uma rodovia que cruza o deserto – além de mais um tempo imprevisível parado no trânsito dos dois centros urbanos, em meio às buzinas que podem tirar do sério até o mais tranquilo dos mortais.

Com ao menos uma noite para descansar, começa a valer a pena a viagem para mergulhar no universo da cidade fundada em 331 a.C. por Alexandre, o Grande, o maior conquistador da Antiguidade. Capital do Egito por quase mil anos (332 a.C. – 642 d.C.), ela tem sua história recheada de nomes familiares. Ali reinava Cleópatra VII, última rainha do Egito, amante dos romanos Júlio César e Marco Antônio. Seu suicídio, por volta de 30 d.C., encerrou os 3 milênios do Egito faraônico, dando origem à dominação greco-romana no país. Hoje, pouco da trajetória lendária é visível nessa agitada cidade portuária e lar de 4 milhões de habitantes.

Coluna de Pompeia – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Com 2.345 anos de vida, a senhora Alexandria não consegue esconder a idade e vive de seu passado glorioso. Deitada à beira do Mar Mediterrâneo, no norte do Egito, com seu mar de prédios altos à beira do calçadão (aqui chamado de corniche), ela faz lembrar a geografia da Copacabana carioca, mas ostenta a charmosa decadência da Havana cubana, com prédios caindo aos pedaços diante do malecón. Há bons restaurantes de frutos do mar (raridade no Cairo), tradicionais cafés para fumar sheesha, doçarias tentadoras e, como é o forte do país, belos sítios arqueológicos.

Todo viajante acaba conhecendo a Coluna de Pompeia, pilar de 30 metros erguido em 291 d.C. no berço onde Alexandria nasceu, e as catacumbas de Kom ash-Shuqqafa, cemitério subterrâneo do século 1.º e uma das sete maravilhas do mundo medieval.

Entre livros. Outra parada clássica é o Forte Qaitbey, monumento mais jovem (para os padrões egípcios), de 1480, mas construída na base do mítico Farol de Alexandria. A bela vista a partir do forte permite ver, ao longe, o meio círculo característico da arquitetura ousada da biblioteca contemporânea. Erguida em 2002, a construção mais moderna de Alexandria reverteu positivamente as expectativas, antes frustradas, dos turistas que tinham de se contentar em conhecer o cemitério – ou melhor, o crematório – de boa parte dos papiros e da memória escrita da humanidade.

Área externa da biblioteca – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Principal centro cultural do país, a biblioteca acabou ganhando tours organizados. O roteiro guiado percorre boa parte dos 11 níveis do prédio todo envidraçado, sete deles para leitura do acervo de 8 milhões de livros. Jovens egípcios têm à disposição 331 computadores com acesso à internet e a 300 mil títulos que já foram digitalizados.

O lugar abriga ainda espaços para exposições, como de manuscritos ou peças arqueológicas da Antiguidade. Localizada ao lado do prédio da Universidade de Alexandria, a biblioteca acabou virando cenário para vários dos protestos recentes do país. Ali os universitários estenderam longas bandeiras do Egito e se mobilizaram para proteger as instalações contra possíveis ações de vândalos. Um exemplo de que, apesar  da crise política e econômica, os egípcios não querem perder, uma vez mais, o maior símbolo de sua cultura milenar. / DANIEL NUNES GONÇALVES, ESPECIAL PARA O ESTADO

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