No comando do navio
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No comando do navio

Mônica Nóbrega

10 Junho 2011 | 08h42

Nasci e cresci em uma cidade portuária. Isso na época em que só os muito ricos ousavam planejar férias em um cruzeiro (o que dá pista da minha idade, mas não vamos tocar no assunto). Todos os demais nos contentávamos em contemplar o entra e sai dos navios no porto. Era um programa e tanto. Sentada na mureta do calçadão do fim da praia, eu esperava o apito que anunciava a partida de mais um transatlântico. E, quando ele passava, entre um tchauzinho e outro, pensava na pessoa que “dirigia” um veículo daquele tamanho sem “bater” nas laterais: a praia e a ilha em frente.

Por uma conjunção de fatores (cresci, os cruzeiros se popularizaram, eu me tornei jornalista e repórter de viagens), fui surpreendida pelo convite incrível durante um cruzeiro pelo Golfo Pérsico: visitar a cabine de comando do navio. Não em um momento qualquer, mas durante a partida do porto de Fujairah, uma das escalas da viagem.

Estava mais que a postos no ponto de encontro, na hora indicada. Uma moça uniformizada deu instruções: falar o mínimo possível e caminhar apenas por um canto restrito da cabine, para não atrapalhar o trabalho da equipe. Para mim estava tudo ótimo. Era permitido chegar até o enorme vidro da frente. E o comandante, o cara da “direção”, estava muitíssimo bem visível em uma espécie de púlpito no centro do lugar. Com um binóculo em mãos.

Não só ele. Dois subcomandantes também tinham os seus, que mal saíam dos olhos. Minhas fantasias infantis não estavam tão erradas assim. Que grande surpresa descobrir que a manobra para levar o gigante do porto até alto-mar é praticamente manual, apesar de toda tecnologia disponível (radares e painéis automatizados de todos os tipos e tamanhos)! Nos cerca de trinta minutos decorridos entre o navio começar a se movimentar e o comandante sair do seu púlpito para cumprimentar os visitantes, sinal de missão cumprida, foram dezenas de gritos  – gritos mesmo – de x graus a bombordo, mais x a estibordo, em intervalos curtíssimos.

Não me pareceu uma manobra fácil. Depois de desencostar do píer, o navio teve de fazer um giro de 90 graus à esquerda em torno de seu próprio eixo, para embicar em direção a um corredor de pedras que conduzia à saída do porto. Depois, outro giro, dessa vez à direita, para se ajeitar dentro do tal corredor. Vencida esta etapa, os binóculos se tornavam ainda mais importantes, para avistar os pequenos barcos de pescadores abundantes na região – e desviar a tempo.

O comandante e seus auxiliares. Fotos Mônica Nóbrega/AE


Manobra de saída do porto, já perto do fim

Vidro dianteiro da cabine de comando

Já em alto mar, o comandante apresentou um pouco do aparato tecnológico que o ajuda a guiar a cidade flutuante. O que mais me interessou foi um painel em formato de alvo cheio de pontos verdes e vermelhos, que indicam a presença de barcos grandes e pequenos no entorno. Os muito pequenos não aparecem em radar nenhum, daí a importância decisiva dos binóculos.

Em alto mar fica tudo mais fácil. Existem vias definidas para quem vai e volta, como as pistas de uma estrada. É nessa hora que o comandante consegue, então, entregar o posto a auxiliares e desempenhar suas outras funções. Como ser o anfitrião de um jantar e posar para fotos com centenas, milhares de passageiros. Depois do que vi, juro que estava tão cheia de admiração por ele que só abri mão da minha foto-tiete porque a fila era grande demais.


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