Nos passos de Kurt Cobain
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Nos passos de Kurt Cobain

Fabio Vendrame

15 Abril 2014 | 02h30

Linda’s Tavern, último lugar em que Kurt Cobain foi visto com vida – Fotos: Stuart Isett/NYT

A biografia do líder do Nirvana, ‘Mais Pesado que o Céu’, serve de base para um roteiro entre Aberdeen, sua cidade-natal, e Seattle, onde o músico alcançou o sucesso que tanto o atormentava

Dave Seminara / SEATTLE / THE NEW YORK TIMES

Quando soube que Aberdeen, cidade-natal de Kurt Cobain, planejava criar um dia para homenageá-lo em razão de sua morte, em 5 de abril de 1994, e que o Nirvana estava entrando no Hall da Fama do Rock’n’ Roll, decidi ver de perto de onde veio meu ídolo adolescente e as coisas que o influenciaram. Como não há nenhum tour organizado do Nirvana, criei o meu próprio, baseado em Mais Pesado que o Céu (Globo Editora, R$ 49,90), a biografia definitiva de Kurt Cobain, escrita por Charles R. Cross.


Comecei pelo Marco Polo, motel na periferia de Seattle que Cobain frequentava nos seus últimos dias, já tomado pelo vício em heroína. De acordo com o documentário da BBC As Últimas 48 horas de Kurt Cobain, ele costumava fugir de sua mansão no aristocrático bairro de Denny-Blaine para encontrar seu traficante na Aurora Avenue. Dali, partiu para o quarto 226 do Marco Polo, onde se matou com um tiro.

A recepção estava fechada quando cheguei naquela noite de segunda-feira, então toquei a campainha. Em seguida, uma janela se abriu e um homem chamado Jonathan apareceu. Ele me olhou de alto a baixo sem dizer uma palavra, fechou a janela e reapareceu momentos depois na recepção, vestido de camiseta, cueca boxer e meias de lã.

Local onde o líder do Nirvana se matou com um tiro

“Este lugar era o Velho Oeste na época de Kurt”, disse, enquanto me dava o quarto favorito do músico. “Havia prostitutas jogando TVs pela janela, traficantes, viciados, tudo.”

Cobain costuma ser associado a Seattle, mas ele passou menos de dois anos na cidade. O ícone grunge morou em vários lugares em Aberdeen, dormiu em incontáveis camas nas vizinhas Montesano e Hoquiam e escreveu muitas canções famosas da banda em Olympia antes de chegar a Seattle, em 1992.

Fui a Montesano pela manhã – Kurt viveu no número 413 da Fleet St. South com seu pai entre 1978 e 1982. Ali em frente, um de seus vizinhos, John Bell, contou-me que, quando a mãe de Kurt vinha visitá-lo, era possível ouvir as brigas do outro lado da rua. Segundo Bell, a centenária e modesta casa com jornais cobrindo as janelas fica fechada a maior parte do tempo.

Dali, dirigi alguns minutos até o estacionamento de trailers Country Estates, onde Cobain viveu com seu avô paterno, Leland, ao sair da Fleet St. Estacionei na entrada e um homem de nome Jerry se ofereceu para me apresentar a Gary Cobain, filho de Leland e tio de Kurt. “Meu pai recebia fãs do Nirvana do mundo todo aqui”, disse Gary, que se mudou para lá depois da morte de Leland, há um ano.

Acompanhando o Rio Chehalis, segui pela Olympic Highway até Aberdeen. A próxima parada seria o número 1.210 da East First St.: a casa onde Cobain viveu quando criança. A região, conhecida como Felony Flats, é repleta de casas pré-fabricadas. Sua mãe, Wendy O’Connor, que hoje vive na Califórnia, colocou a modesta casa, avaliada em US$ 67 mil, à venda por US$ 500 mil.

A casa onde morou com a mãe, em Aberdeen

À venda. Um corretor me mostrou o imóvel, anunciado como “uma oportunidade única de possuir um pedaço da história do rock”. Foi como viajar aos anos 1970: cozinha vintage, corredor com lâminas de madeira e o quarto de Cobain, exatamente como ele o deixou: com o buraco de um soco na parede e muitos grafites de suas bandas favoritas, Led Zeppelin e Iron Maiden.

O ponto alto do tour é o Kurt Cobain Landing, um parque, aberto em 2011 pela Fundação Kurt Cobain, aos pés da Ponte Young Street, que inspirou a canção Something in the Way. O líder do Nirvana dizia ter vivido um tempo debaixo da ponte – e apesar de poucos acreditarem nisso, sabe-se que este era um de seus lugares favoritos.

A ponte Young Street inspirou ‘Something in the Way’

Localizado ao longo do turvo Rio Wishkah, o parque guarda uma imagem de Cobain com a letra de Something in the Way, uma lápide com algumas frases do músico (como “Sou uma infecção bacteriana ambulante”), uma escultura de Cobain simulando tocar guitarra e grafites relacionados ao Nirvana.

Dois meses depois de ser pago para tocar pela primeira vez, Cobain deixou Aberdeen e mudou-se para a boemia Olympia. Minha primeira parada ali foi no 114 da Pear St., uma casinha no centro dividida em três apartamentos – no número 3, Cobain viveu com Tracy Marander, sua namorada na época. Ali ele compôs muitas das canções de Nevermind. Depois que se separaram, Cobain manteve seu miniapartamento até julho de 1991.

Scott Taylor, cantor e guitarrista da banda local Hard Way, vive ali e me mostra um pôster do Nirvana com Kurt posando no que é hoje seu jardim. O fato de um músico morar no mesmo endereço de Cobain não é simples coincidência: para uma cidade pequena, Olympia tem uma vibrante cena musical.

Em baixa, cena grunge está quase extinta

Ouvindo a trilha do Nirvana a caminho de Seattle, sinto que seguir os passos de Cobain é perseguir uma sombra. Especialmente em Seattle, que mudou tanto desde que Cobain morreu que se tornou quase irreconhecível.

Bruce Pavitt, fundador do selo Sub Pop (que contratou o Nirvana) e autor do e-book Experiencing Nirvana: Grunge in Europe 1989 (disponível na Amazon), disse que um dos lugares que pouco mudaram desde que a banda tocou ali é o Central Saloon, bar mais antigo de Seattle, de 1892. Os especialistas consideram um show no Vogue (hoje um salão de cabeleireiros) como o primeiro do grupo, mas Pavitt insiste que foi um concerto em 10 de abril de 1988 no Central Saloon. “Ninguém se lembra porque apenas eu, o porteiro e umas três pessoas estavam lá”, diz.

O Central ainda é uma grande taverna, mas hoje recebe um público arrumadinho. Outro point do roteiro Nirvana é The Crocodile, outrora um clube grunge, hoje reformado; o OK Hotel, primeiro lugar em que a banda tocou Smells Like Teen Spirit, hoje um condomínio aristocrático; e a Beehive Records, onde a banda fez um concerto legendário pouco antes do lançamento de Nevermind – hoje, um pet shop. Linda’s Tavern, reduto grunge ainda aberto, foi o último lugar em que o músico foi visto com vida.

Caminhando em Denny-Blaine, último endereço de Cobain, percebi que o filho mais famoso de Aberdeen nunca se encaixou em Seattle – especialmente nesse bairro. E comecei a pensar como Cobain veria o atual cenário de Seattle, Olympia e Aberdeen.

Olympia se tornou mais artística, com músicos lutando para serem reconhecidos por toda parte – até no antigo apartamento de Cobain. As casas dilapidadas em Aberdeen conversam com a depressiva realidade de onde muitos jovens ainda tentam escapar. E o fato de que muitos dos pontos grunge onde o Nirvana tocou em Seattle morreram – ou se transformaram totalmente – é um testemunho da atual especulação imobiliária. /D.S.

  • SAIBA MAIS
  • Aéreo: SP – Seattle – SP: desde R$ 2.685 pela United e R$ 2.971 na American. Voos com conexão
  • Visto: baixe o formulário em oesta.do/visto-para-eua. Reserve ao menos duas semanas para o processo de entrevista e retirada do documento
  • Exposição: o EMP Museum de Seattle realiza a exposição Nirvana: Taking Punk to the Masses, com mais de 150 itens à mostra até meados de setembro