Passado sombrio jamais esquecido
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Passado sombrio jamais esquecido

Fabio Vendrame

18 Fevereiro 2014 | 03h30

O bairro central de Shockoe Split – Foto: Divulgação

Núcleo da resistência pela escravidão durante a Guerra Civil, Richmond mostra lado progressista e moderno sem deixar de rediscutir sua trajetória

RICHMOND

Para compreender melhor um dos capítulos cruciais da história americana é preciso deixar Washington e percorrer cerca de 170 quilômetros rumo ao coração da Virgínia. O legado da Guerra Civil americana (1861- 1865) – a Guerra de Secessão – continua vivo em Richmond, a capital do Estado, que também confronta sua história escravagista. Há muitas estátuas em homenagem aos “heróis confederados”, mas um museu montado em uma antiga indústria bélica convida todos a dialogar sobre o significado do conflito.


Há um século e meio, a cidade de Richmond representava a luta pelo passado. Entre 1861 e 1865 a capital da Virgínia também foi a capital dos Estados Confederados da América, o nome formal dos 13 Estados americanos sulistas que se rebelaram para lutar, entre outras coisas, pelo direito de manter negros como escravos nas plantações.

Hoje, Richmond é uma cidade progressista, cultural e que está sempre repensando sua história. Numa prova a olhos vistos disso, estátuas de generais confederados dividem o espaço urbano com museus, lojas moderninhas e restaurantes sofisticados.

Esses contrapontos aparecem também na própria malha urbana. O moderno prédio do Museu de Belas Artes de Virgínia, por exemplo, ocupa uma área que, no fim do século 19, foi um complexo residencial para veteranos confederados. O centro econômico da cidade, com hotéis, bares e restaurantes, fica ao lado de um bairro onde até o começo do século 18 eram realizados leilões de escravos.

Pontos de vista. No entanto, a conversa sobre o passado escravocrata de Richmond não acabou. Aliás, está bem vivo em um dos lugares mais fascinantes da cidade. O American Civil War Center não guarda só artefatos da Guerra Civil, mas também uniformes, armas e cartas. Tem mostras interativas em que os visitantes podem deixar suas impressões e os seus significados próprios do que é morar ou visitar um Estado que, há muito tempo, lutou tão bravamente por um passado tão sombrio.

O museu conta a história de três pontos de vista distintos: do norte unionista, do sul confederado e dos escravos. E tudo isso volta à vida em um conjunto de prédios históricos que, durante a guerra, era a siderúrgica Tredegar, que fabricou mais da metade de todos os canhões usados pelas forças rebeldes.

Andar nos gramados ao redor do Tredegar é uma experiência tão pacífica que é difícil imaginar o incêndio que dizimou a região ao redor da velha siderúrgica em 1865, quando as forças nortistas chegaram à cidade e os sulistas queimaram tudo. A paisagem é marcada pelo Rio James, limpo e usado pelos moradores para canoagem, rafting e pescaria.

Passeio pelo Rio James – Foto: Divulgação

O rio é pontilhado por ilhas com parques, trilhas para bicicleta e palcos para shows. É ali, em sua margem, perto do Tredegar, que se realiza o maior evento cultural da cidade, o Richmond Folk Festival – embora os locais avisem que a definição de “folk” seja bem liberal, com muitos representantes de música internacional. A próxima edição será em outubro e a festa tem entrada gratuita.

Outro Capitólio. O epicentro dos contrapontos de Richmond é o Capitólio, prédio que abriga a assembleia e o senado estadual da Virgínia. Ele foi projetado por Thomas Jefferson (1743-1826), terceiro presidente dos Estados Unidos, autor da Declaração de Independência do país. Construído em 1788, foi o primeiro prédio público em estilo clássico da América. As colunas romanas que remetem ao Iluminismo francês do século 18 eram um contraste irônico, durante a Guerra Civil, com o governo escravocrata que se reunia ali dentro.

Mais ironicamente, o prédio foi usado, 150 anos depois, como local de gravação de cenas do filme Lincoln (2012). No longa, o Capitólio da Virgínia fez as vezes do de Washington em uma cena em que os deputados federais discutiram e aprovaram o fim da escravidão.

Monumento ao general Lee – Foto: Divulgação

Uma das salas do Capitólio, o Old Hall, está apinhada de estátuas, sendo a mais imponente a do general Robert E. Lee (1807-1870) – representa o momento em que ele aceitou, naquele exato ponto, o cargo de comandante supremo das forças confederadas. Por toda Richmond, a propósito, há estátuas de Lee. Isso porque ele é uma figura pouco controversa, apesar de ter sido líder militar dos rebeldes.

Lee tinha se declarado contrário à escravidão e, também por isso, sempre foi considerado um homem honrado e prestativo, apto a acabar com a fissura entre norte e sul após a guerra.  “Um santo secular”, como define Sean Kane, do Civil War Center. Não por acaso, é dele também a estátua mais impressionante da Monument Avenue, uma arborizada e larga via pontuada por imagens de personagens famosos. / DANIEL TRIELLI

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