Peluqueria, barbería ou hairdresser: pelas cadeiras de barbeiro do mundo
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Peluqueria, barbería ou hairdresser: pelas cadeiras de barbeiro do mundo

Felipe Mortara

27 Fevereiro 2014 | 22h45

 

Don Felipe faz seu trabalho em Mérida. Foto: Jaque Januzzi/Estadão

Ano após ano a vida foi sendo muito gentil comigo ao me levar para trabalhar – e muitas vezes passear, é verdade – em lugares incríveis. Por outro lado, o tempo não foi muito gentil com meus cabelos e há alguns anos tem se divertido em escasseá-los implacavelmente. Contudo, alguns fiéis guerreiros continuam na batalha, tanto em cima quanto na barba. De tempos em tempos, acabo precisando (no fundo, eu curto muito) aparar as (ralas) juba e barba em algum barbeiro pelo mundo.

Adoro o trabalho do Albano, meu barbeiro titular há mais de um ano, instalado numa casinha de 1930 a menos de 100 metros da minha porta. Mas o que ele não sabe é que há tempos me sento em diferentes cadeiras de colegas seus em outras cidades e países. Ao mesmo tempo, loucura e privilégio. Ou teria outro nome beber uma cerveja sob o calor úmido de um fim de tarde em Cartagena, e pagar o equivalente a R$ 8 por um corte e barba? Além de uma boa prosa com Orlando Ortega, da Barberia Ralf, há 60 anos dentro das velhas muralhas colombianas.

 

Em Cartagena, Manuel Cordero Ortega lapida um pezinho. Foto: Felipe Mortara/Estadão

O curioso é perceber como os rituais de cada profissional são diferentes. Isso sem falar nos estilos dos estabelecimentos ou nos cortes mais populares. E a onipresente dúvida: será que vou sair daqui mais feio do que entrei? Certa vez, uma cabeleireira peruana queria porque queria passar gel no meu cabelo. Eu gostei dela. Coitado de mim, saí lambido.

Cortar o cabelo ou aparar a barba no escuro é uma roleta russa, geralmente sem morte no fim. No máximo, um arrependimento. Se eu já lamentei a decisão alguma vez? Sim, inúmeras. E continua insistindo em não cortar com um cabeleireiro de sua confiança? Sim, porque tem sempre alguma vantagem, nem que seja o motivo pra escrever essas linhas.

Eis um exemplo de que pior do que está pode, sim, ficar. Muitos anos atrás, num rústico (“primitivo” talvez seja meio pesado) salão na Península do Sinai, tentei comunicar-me com um ríspido barbeiro egípcio e lhe dizer o que gostaria. Com o calor que fazia durante o dia, eu havia achado um barato o estilo do cabelo raspado de um motorista de excursão. Lancei mão da minha pós-graduação em mímica para tentar explicar ao homem da navalha o que eu queria. Saí de lá parecendo o eterno zagueiro Ronaldão, do São Paulo. Mas pelo menos batia um ventinho nas laterais da cabeça.

 

Ambiente da Barbería Ralf, em Cartagena. Foto: Felipe Mortara/Estadão

Mas vamos falar de coisa boa? A última viagem, por exemplo. Nas escaldantes ruas de Mérida, no México, procurava desesperadamente alguém para me deixar com ares apresentáveis, afinal, retornaria ao trabalho dali dois dias. Quando finalmente avistei uma “peluqueria”, sorri por dentro. Raspar o cabelo com máquina 2 aliviaria o calor implacável.

De ar sério, olhos verdes severos, Don Felipe, era de poucas palavras. Em portunhol afiado após algumas semanas de uso intenso, creio que me fiz entender. Meu xará usava aparelho de surdez, ousei repetir. “Máquina 3 arriba y 2 en la barba”. Ao que ele contestou, com a sinceridade ecoando por suas olheiras imensas, “1,5 és lo mejor para ti, te quedará más harmonioso”. Não ousaria contestar.

Pressa não era seu lema e, pouco a pouco, se formava uma fila no banco do salão. Após passar a máquina no meu cabelo, parecia caçar vorazmente com a tesoura qualquer fio rebelde. Só na barba, passou, tranquilamente, mais de 30 minutos. Até eu já estava nervoso com o esmero do homem. Ô sujeitinho caprichoso. Após uma eternidade com a navalha na minha goela, estava curioso para ver o resultado. Quando o encosto da cadeira voltou à posição vertical, o espelho foi muito gentil comigo. Meu xará havia feito ao longo de uma hora o que Albano não conseguiu fazer até hoje. Apertei sua mão, contei de onde era, ele ficou empolgado e ainda elogiou meu portunhol.

Tomara que Albano não leia isso, e se ler, que não me leve a mal, mas se Mérida fosse logo ali, ele teria perdido um cliente.