Pensamentos de um Natal em Christmas
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Pensamentos de um Natal em Christmas

Adriana Moreira

24 Dezembro 2013 | 01h40

Ilustração: Marcos Müller/Estadão

Por pura e confessa excentricidade, nosso insuperável viajante estará, nos próximos dias, na remota Christmas Island, uma possessão australiana que fica algumas centenas de quilômetros ao sul da Ilha de Java, na Indonésia. Tórrida, úmida e bem em cima da linha do Equador, a ilhota é propícia para o avistamento de tubarões-baleia e concentra grande variedade de aves, que mr. Miles deve estar observando com seus inseparáveis binóculos. Não foi a paixão pelo birdwatching, contudo, que levou nosso correspondente tão longe. “Estou aqui apenas porque resolvi viver uma experiência nova: passar o Natal em Christmas. Do you mind?” Das lonjuras do Índico, nosso viajante atualizou a correspondência.

Caro mr. Miles: na realidade, você não existe. Impossível mandar artigos todas as semanas dos lugares onde você alega estar. Ainda assim, quem bolou o personagem merece elogios, pois escreve muito bem, apresenta pontos de vista inusitados e, às vezes, muito engraçados. Happy New Year! (Hans Freudenthal, por e-mail)

“Hans, my friend, não há nada mais disgusting do que passar os dias duvidando da própria existência. Lendo cartas como a sua, chego a supor que sou uma abstração, um fantasma de chapéu coco. And you know what? A ideia chega a soar lisonjeira, na medida em que me coloca em uma dimensão diferente da dos seres comuns. Dura pouco essa ilusão, contudo. Quando as dores no joelho recomeçam ou quando me sinto em apuros fisiológicos sem qualquer conforto sanitário nas proximidades – believe me, my friend –, eu adoraria ser um personagem.


Anyway, Hans, seus elogios aos meus parcos relatos nesse idioma tão belo, que não é o meu, são recompensadores. Espero que eles não sejam apenas kind and polite. A julgar pela primeira parte de sua pergunta, não sou sequer suficiente verossímil para parecer que existo.

Mr. Miles: reportando-me a um tema já abordado. Para conhecer o mundo, qual é o melhor caminho: mudar os lugares por onde se passa ou deixá-los como estão? (Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli, por e-mail)

Nice question, Robert: missionários, cruzados, invasores, evangelizadores e divulgadores de todas as fés e ideologias vagam pelo mundo para mudá-lo. Eu os vejo sempre, my friend. Eles não veem nada. Não escutam som algum. Não aspiram o aroma dos mercados e dos campos. Não procuram a alegria nas pessoas. Pessoas que transitam dessa forma não são viajantes, I’m afraid to say. Eles transportam um mundo irremediavelmente pronto no interior de seus corações e querem mudar os lugares e as pessoas porque – poor people! – têm a ilusão de que sabem tudo.

Viajar, my fellow, é justamente o contrário. Mente desarmada, disco rígido limpo, olhos ávidos, desejo de aprender (ainda que seja para ter substância ao discordar). É de uma ultrajante pretensão passar pelos lugares para deixar marcas. São os lugares, my friends, que marcam as pessoas. Plantam flores no jardim da memória; erguem mirantes para pontos de vista mais amplos e abrangentes. E, last but not least, costumam ser extremamente divertidos.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

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