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Quando Vargas Llosa falou ao Viagem

Bruna Tiussu

12 Outubro 2010 | 13h39

Leia na íntegra a entrevista que o escritor Vargas Llosa concedeu à repórter Ana Carolina Sacoman ao Viagem, em 23/1/2007, época do lançamento da obra Travessuras de Menina Má:

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 70 anos, viveu de perto cada uma das mudanças convertidas em pano de fundo histórico de Travessuras da Menina Má.  Assim como o protagonista, Ricardo Somocurcio, estava em Lima nos anos 50, viu de perto a onda de manifestações em Paris na década de 60, se encantou com os hippies londrinos nos anos 70 e viu a Espanha passar de um país praticamente subdesenvolvido e sob forte ditadura para uma nação
democrática e próspera, na década de 80.

Há ainda outras coincidências entre criador e criatura: como Ricardo, Vargas Llosa trabalhou uns tempos como tradutor da Unesco, em 1967, e viveu no École Militaire, em Paris.  Escreve, então, de memória sobre cafés, restaurantes, ruas e praças. É, em suas palavras, maniacamente realista nas descrições.
Mas as referências autobiográficas, garante, param por aí.

Os encontros e desencontros amorosos entre o protagonista e a menina má são ficção. O homem que nunca tira férias acredita que um turista não pode deixar de se interessar pelos aspectos políticos e sociais do país visitado. “Não se pode entender uma sociedade e um país se não se interessar minimamente pela problemática política”, diz.  E afirma ter saudades do interior da Bahia, um lugar de “gente extremamente generosa, que vive num mundo cheio de mitos, lendas, com uma paisagem única, espinhosa e bravia, como a personalidade de sua gente”.


De Lima, onde aproveita o verão, Vargas Llosa falou ao Viagem, por telefone. Veja a seguir:

As cidades onde se passa a história de Travessuras da Menina Má são todas importantes em sua vida?
Muito importantes e, além do mais, creio que tive muita sorte por viver em cidades como Paris, Londres e Madri em uma época em que nessas cidades ocorriam coisas que tiveram uma enorme repercussão em todo o mundo. Nos anos 60, por exemplo, Paris, além de ser a cidade histórica, grande centro de cultura, era uma cidade onde praticamente saíam as idéias que mobilizavam os jovens de todo o mundo, que converteu a revolução cubana em um mito. Era uma cidade de enorme fermento ideológico e político. Nos anos 70, viver em Londres era como viver no centro do mundo, porque ali havia uma revolução que não era tão política, mas de valores, culturas, costumes. Essa é a Londres da revolução hippie, dos flower children, dos Beatles, da grande revolução que significa a música como signo de identidade dos jovens do mundo. É a cidade onde começa o grande movimento do orgulho gay, quando os homossexuais saem do armário. Nos anos 80, Madri é uma cidade referência pela extraordinária transição que vive a Espanha, da ditadura para a democracia.  Há a movida madrileña, que também é uma certa revolução nos costumes. Todo esse contexto, em meu caso, vivi de certa forma diretamente, pois vivi esses anos ali.

Ricardo, ao contrário, fica à parte dos acontecimentos…
É verdade. É um personagem mais passivo, que vê passar ao seu lado todas essas coisas, sem participar delas. Ele não tem senão uma experiência importante em sua vida, que é seu amor pela menina má. Graças a esse amor, vive uma intensidade de experiências que de outra maneira não teria, pois sua vida é rotineira, monótona. Porque, diferentemente dela, é passivo, conformista.

O livro tem detalhes minuciosos de lugares, como o nome de uma rua, onde há um restaurante, uma praça, um hotel. E todos (ou quase) existem, não?
É verdade que sou, nesse sentido, maniacamente realista. Realismo não quer dizer descrição fotográfica da realidade, mas, sim, usar a realidade como um ponto de partida e com maior objetividade para, a partir daí, construir algo imaginário. Nessas cidades, sim, sou bastante objetivo, mas objetivo com a época, pois as histórias ocorrem nos anos 60, 70 e 80, e muitos desses lugares já não existem. Por exemplo, descrevo, em Paris, o (restaurante) Mexico Lindo e hoje em dia, que tristeza, é uma loja de botas (risos). Mas há muita fidelidade. Muitos dos lugares que descrevo existem.

São lugares importantes para o senhor?
São lugares que eu freqüentei, que conheci, que de algum modo conservei na memória. Ali, sim, há memória, mas trabalhei muito, há verificações.  Em Lima, que mudou muito desde os anos 60, alguns dos lugares que descrevo não são exatamente assim, mas foram.

Em Paris, o senhor fala muito dos arredores da École Militaire, onde Ricardo vive…
Exatamente. Eu vivi nesse bairro muitos anos. Não tem o encanto de Saint-Germain-des-Près ou do Bairro Latino (Quartier Latin). Eu vivi ali porque tive a sorte de achar um apartamentinho alugado muito barato. Não é (um bairro) muito bonito, mas se pode ir andando praticamente a toda parte, às Tulherias, às Champs-Elysées, ao Bairro Latino.

É seu lugar preferido na cidade?
Não, o preferido é sempre (a área do) Bairro Latino e Saint-Germain-des-Près, porque vivi a maior parte do tempo ali. Segue sendo o bairro dos jovens, dos cinemas, teatros, universidades, onde estão os cafés mais simpáticos. Nesses cafés escrevi boa parte dos meus livros. Eles aparecem porque são muito importantes na minha vida de escritor. Aprendi a trabalhar, a escrever em cafés. Sempre que estou em Paris, mesmo que por poucos dias, passo umas horas escrevendo nos cafés que me encantam.

Em Madri, escolheu o bairro de Lavapiés…
Porque é um bairro que tem muita cor, é mais cosmopolita, divertido. Quando cheguei a Madri, estudante, era um bairro mais castiço, mais madrilenho, e, em poucos anos, a partir dos (anos) 60, 70, foi se convertendo no bairro dos imigrantes. Hoje em dia, é um lugar muito divertido. Existem traficantes, drogas, violência, mas tem cor e graça.

Acredita que as cidades são também personagens de Travessuras da Menina Má?
Sim, acredito que as cidades têm presença quase humana porque a vida dos personagens está intimamente ligada à paisagem urbana, como uma prolongação. Procuro, em meus livros, que não haja uma separação total entre as histórias, os personagens e os meios. As cidades aparecem na medida em que são importantes para o desenvolvimento da ação, para entender a psicologia do personagem; é uma projeção do personagem, incorporada à história.

Nesse contexto, Tóquio aparece somente para o desenvolvimento da história…
Exatamente. O que acontece ali tem a ver com a cidade, com uma certa psicologia, um mundo exótico para Ricardo, um mundo em que não se sente cômodo, que não conhece.  Isso contribui para o estado de sobressalto em vive desde que pisa em Tóquio.

Acha que os romances podem ser bons guias turísticos?
Sim, para mim têm sido. Uma das coisas mais divertidas que fazia em Paris, quando cheguei, e em Madri, antes, era seguir o itinerário dos romances. Lembro, em 1958 e 1959, em Madri, seguia os romances de Pío Baroja, como, por exemplo, Aurora Vermelha, uma trilogia sobre anarquistas.  Seguia o itinerário, que existia, porque ele também era um maníaco por realismo. E lembro de ter lido Fortunata e Jacinta, de Benito Pérez Galdós, (que se passa) na Madri do século 19, que estava intacta nessa época e pude seguir pelas ruas essas descrições. Em Paris também. Quando trabalhava na Rádio e TV francesa, lembro de ter feito alguns programas sobre Paris vista por alguns romances. De Balzac, Stendhal, Flaubert.  No Brasil, nas temporadas que passei em Salvador, muitas vezes segui pelas ruas lendo as descrições de Jorge Amado sobre o Pelourinho e distintos bairros da capital. Acredito que a literatura é o melhor guia turístico das cidades.

O senhor tem casas em Londres, Paris, Madri e Lima. Onde passa mais tempo?
Depende dos anos e do trabalho. Quando trabalhava na menina má, passei temporadas grandes em Paris, porque facilitava o trabalho. Em Lima, estou sempre no verão.  E o resto do ano passo na Europa, de um lugar a outro.No romance, o senhor fala das transformações sociais e políticas que ocorreram na Europa e na América Latina.

Acredita que um turista deve atentar-se a esses aspectos em suas viagens?
Um turista que tem sensibilidade não pode evitar interessar-se por essa problemática. Não precisa se tornar um especialista, mas é importante que tenha uma certa percepção do que ocorre em âmbito político, porque pode ter surpresas desagradáveis (risos). É importante ter esse tipo de conhecimento, não se pode entender realmente uma sociedade e um país se não se interessa minimamente pela problemática política.

Não ser um personagem passivo…
Uma mínima curiosidade, sim, tem de ter, porque isso levará a um conhecimento maior da sociedade que está visitando. Não impede que se divirta, o que é legítimo, mas, ao mesmo tempo, como não se interessar? Se vai ao Brasil, há as praias, os restaurantes, a música. Tudo isso é maravilhoso, mas o Brasil é muitas outras coisas também. Há uma problemática, uma diversidade, há conflitos de tipo cultural, político. Ter conhecimento disso te dá uma maior inserção no país.

Qual cidade merece um romance que ainda não escreveu?
Tantas. Tinha de ter várias vidas para escrever sobre todas as cidades que tenho recordações muito vivas, mas espero escrever várias histórias antes de morrer.

E onde vai de férias?
Não tenho nunca férias. Trabalhar é um prazer supremo, me divirto muito escrevendo, não consigo viver sem escrever. Tenho a sorte de levar meu trabalho pelo mundo. Agora mesmo estou em Lima, no verão. De quando em quando, aproveito, tomo banho de mar, mas meu trabalho segue. Férias, no sentido de deixar de trabalhar, não tiro nunca. Me sinto muito mal, não gosto, fico de mau humor. Meu trabalho me dá equilíbrio, é um prazer infinito e uma forma de diversão.

Qual seu lugar preferido no Brasil?
Gosto de tantas coisas no Brasil… Se tiver de escolher, provavelmente escolho a Bahia. Tenho lembranças tão maravilhosas de lá. Vivi em Salvador e fui ao interior da Bahia. Passei praticamente por todo o sertão baiano e não esqueci nunca, pela beleza da paisagem, a generosidade das pessoas, a personalidade extraordinária, sobretudo do baiano do interior, o caboclo, gente de personalidade forte, bravia, tão diferente do baiano do litoral, que é mais comunicativo, alegre. Gostaria muito de voltar.

Nunca mais voltou?
Ao interior, não. A Salvador, sim, várias vezes. Mas não perco as esperanças de voltar mais uma vez.

Nos anos 50, em Lima, o senhor trabalhou na Revista Turismo. Escrevia sobre viagens?
Era uma revista cultural, que entendia o turismo como manifestação cultural.Acredito que é a melhor expressão do turismo. Então, era uma revista onde havia informações de tipo turístico, mas orientadas para a cultura. Se se falava de Áustria, se falava da música, dos festivais, dos grandes compositores e diretores e instrumentistas. Era uma revista dessa índole. Me diverti fazendo esse tipo de jornalismo, por dois anos, quando era estudante na universidade.

O LIVRO
Por quatro décadas, o peruano Ricardo Somocurcio “persegue” o amor de sua vida, a menina má, pelo mundo. Eles se conhecem, ainda pré-adolescentes, no bairro de Miraflores, na Lima dos anos 50, e se encontram em cidades e tempos diferentes, sempre em meio a transformações políticas e sociais. Tradutor da Unesco, Ricardo acompanha essas mudanças meio à distância, enquanto segue uma vida pacata em Paris, a cidade de seus sonhos. Ela, cada vez de nome e marido diferentes, encarna vários personagens ao longo da vida: guerrilheira, madame francesa, milionária inglesa, gueixa moderna japonesa.
Travessuras da Menina Má: tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht; 302
páginas; ed.  Alfaguara.  Preço sugerido: R$ 39,90

Leia também a reportagem de Mario Vargas Llosa publicada no Viagem de 13/10/2009:

Histórias de um castelo assombrado – Do ‘doutor’ que teria feito pacto com o diabo ao fantasma de Galgorm