Roteiro para decifrar os enigmas do Cairo
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Roteiro para decifrar os enigmas do Cairo

Fabio Vendrame

25 Fevereiro 2014 | 03h40

Museu do Cairo – Foto: Daniel Nunes Gonçalves


CAIRO

Ainda que a passagem pelo Cairo seja só de dois ou três dias, há bons motivos para conhecer a face bonita da capital egípcia. Saqueado por alguns revolucionários em 2011 – mas logo defendido por outros, que formaram uma corrente humana de proteção em seu entorno –, o Museu do Egito é obrigatório. São 100 mil peças de até 5 mil anos, incluindo a tumba de Tutancâmon e a sala das múmias. Se ventos mansos voltarem a soprar em breve no país, as relíquias devem ganhar instalações mais bem organizadas ao lado das pirâmides de Gizé em 2015.

Última maravilha da Antiguidade, as três pirâmides principais – parte da coleção de 118 espalhadas Egito afora – foram erguidas de forma misteriosa há mais de 4 mil anos para abrigar os corpos do faraó Quéops, seu filho Quéfren e seu neto Miquerinos. Com altura de prédios de até 49 andares, elas compõem a imagem de fundo da Esfinge, em torno da qual são realizados shows noturnos de som e luz sobre os monumentos.

Sítio arqueológico Saqqara – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Espalhado por 7 quilômetros do Deserto do Oeste, o vizinho Saqqara se destaca como o maior e mais ativo sítio arqueológico do país. Por 3.500 anos, ele foi o cemitério de Mênfis, nome original do Cairo e capital do Egito Antigo na maior parte do período faraônico. Sua pirâmide de Zoser ostenta o título de mais antiga construção em pedra do planeta. Ali, vendedores e guias oferecendo passeios de camelo também parecem treinar há milênios. Para fugir, encha-se de paciência, não olhe para o que não deseja e agradeça: shukran.

No Cairo, o comércio concentra em locais como o souq Khan Al Kalili, um emaranhado de corredores do século 14 abarrotados de souvenirs de faraós e pirâmides, perfumes e pedras semipreciosas. O passeio só fica completo com uma parada no Elfishawy, café clássico de 1773 frequentado por nativos e estrangeiros. Em um país onde 90% da população é muçulmana e quase ninguém consome álcool, o código social para relaxar à mesa passa pelo consumo de chá e de sheesha (narguilé).

Suvenirs na Cidadela – Foto: Daniel Nunes Gonçalves

Tradição, por sinal, é palavra de ordem nas visitas a bairros religiosos como o “Cairo Islâmico”, com mais de 800 monumentos. Na Cidadela, cujas muralhas começaram a ser erguidas em 1176 d.C., a mesquita Mohammed Ali, bonita por dentro e por fora, oferece uma linda panorâmica do Cairo. Que fica mais encantador quando o muezim convoca, do alto dos minaretes, os muçulmanos a rezarem virados para Meca.

O bairro Copta, por sua vez, é dedicado ao cristianismo egípcio (que tem até papa próprio). Ainda que não tenha muito a mostrar além de uma escadaria para o subsolo, de acesso proibido, a igreja de São Sérgio e São Baco, do século 11, atrai peregrinos por uma razão nobre. Foi erguida sobre a caverna onde, acredita-se, Maria e José teriam se escondido com o menino Jesus ao fugirem do rei Herodes, que ordenara a matança de todos os recém-nascidos.

Tempos modernos. O peso dos mais de 2 mil anos de história não deixou o Cairo parado no tempo: a maior cidade africana impressiona quem mergulha na sua faceta mais cosmopolita. No Sequoia, restaurante-lounge em forma de uma tenda chique à beira do Nilo, homens estilosos e mulheres idem – muitas, sem véu – jantam, fumam sheesha e se divertem como em Nova York ou Paris.

Amantes da culinária árabe vão se refestelar até mesmo só com os mezzes, as entradas. Não espere esfihas e quibes, comuns na mesa libanesa. Os egípcios pegam o pão árabe com a mão e fazem conchinhas com homus, tahine e babaganuche. Em meio a kaftas e falafels, os menus listam carne de vaca, carneiro e até pombo. Para terminar, doces como o delicioso omm ali (mingau de forno com castanhas).

O Sequoia fica no distrito de Zamalek, na ilha de Gezira, área nobre que abriga embaixadas, a Opera House e centros culturais vibrantes como o El Sawy CultureWheel, com teatro, shows e exposições. Lugares para interagir e entender o que é o Egito hoje.

“Apesar do momento difícil que atravessamos, dá orgulho saber que a revolução foi feita pelo povo”, diz Mohamed Adeeb, cineasta egípcio de 25 anos que conheci no Sequoia. “O que mais queremos é justiça social”, afirma a farmacêutica Ingy Darwish, frequentadora do El Sawy. Assim como os grafites da Praça Tahrir, a voz da juventude mostra que o Egito continua vivo – e em plena transformação. “Desejo que o novo governo traga estabilidade para que os turistas voltem a movimentar nossa economia”, diz o agente de viagens Amr Fathi. Inshallah. / D.N.G

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