Rumo ao Everest: e o preparo físico?
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Rumo ao Everest: e o preparo físico?

Felipe Mortara

03 Abril 2014 | 06h14


Exame exige caminhada e corrida em esteira ergométrica. Foto: Airton Gontow/Divulgação

Quando finalmente a viagem ao Nepal foi confirmada, imediatamente me perguntei: “será que tenho preparo físico para caminhar por 17 dias a mais de 4 mil metros”? Como não tenho hábitos regulares de esporte – ou seja, não acordo três vezes por semana para malhar – confesso que tremi. Minhas pedalas esporádicas pela cidade pareceram inúteis por alguns instantes. É claro que dá um medinho, ainda mais porque estive poucas vezes em altitudes tão elevadas e o que nosso senso comum imagina é que, no mínimo, é preciso ter o preparo físico de um atleta de ponta para realizar a travessia de Lukla (2.840m)  até Gokyo (5.040m) passando pelo acampamento base do monte Everest (5.364m). Demorei um pouco, mas descobri que isso não é totalmente verdadeiro.

Doutor Turibio Leite de Barros foi durante vários anos fisiologista do São Paulo Futebol Clube. Foto: José Luis da Conceição/Estadão

Parti para o Instituto Vita, especializado em medicina esportiva e recuperação de lesões, para uma avaliação com o fisiologista do esporte Turibio Leite de Barros, que por mais de duas décadas ajudou no preparo a equipe do São Paulo Futebol Clube, especialmente quando de desafios nas alturas, contra equipes pela Taça Libertadores da América. Inclusive, a clínica fica dentro do Estádio do Morumbi e de algumas áreas é possível avistar o gramado. “Na altitude você vai enfrentar uma diminuição da capacidade de captação de oxigênio, porque tem de 30 a 40%  menos oxigênio no ar. Esse é o seu desafio”, me explicou o doutor Turibio.

Fui parar numa daquelas esteiras com uma dezena de plugs colados no peito e ligados a um computador que monitorava tudo. Como se não bastasse isso, o teste ergoespirométrico só poderia ocorrer com uma máscara sobre meu rosto – estilo a de pilotos de aviões de caça. O objetivo era conhecer meu potencial aeróbio, ou seja, da minha capacidade cardiorrespiratoria, e fazer uma estimativa do meu consumo de oxigênio na caminhada, considerando o ritmo e a altitude da trilha.

Ao ser submetido a um esforço máximo ao nível do mar, eu teria um consumo máximo de oxigênio que os médicos quantificam e normalizam pelo peso corporal. E esse é um índice que os especialistas costumam utilizar como referência de aptidão física. “No seu caso, Felipe, o índice é de 35,62 mililitros por quilo por minuto – seria como se medíssemos a maior capacidade do seu giro de motor para produzir energia”, explicou Turibio.  Apenas a título de curiosidade: um jogador de futebol mediano tem índice de cerca de 55 ml/kg/minuto enquanto uma pessoa com aptidão física pobre, um sedentário, teria de 25 a 30.

Além disso, foi medida minha capacidade máxima de consumo de oxigênio durante as caminhadas, como para compreender o quanto se pode acelerar um motor sem fundi-lo. “A gente mediu e seu potencial seria o equivalente a 77% do seu consumo máximo de O2, o que dá 27 ml/kg/minuto”, resumiu Turibio.

Algumas áreas do Instituto Vita têm vista para o gramado do Estádio do Morumbi. Foto: Felipe Mortara/Estadão

Como não andarei ao nível do mar, mas numa atmosfera que compromete em pelo menos 30% do meu nível máximo de consumo, Turibio mediu quanto oxigênio eu eu respiro ao andar a 5 quilômetros por hora, velocidade média de caminhada aqui. Nestas circunstâncias  esse consumo foi de 12 ml/kg/minuto. “Vamos fazer uma conta, acompanha comigo. A 4 mil metros você não tem como consumir 77%. Lá seu consumo máximo vai ser de mais ou menos 25 ml/kg/min.  E 77% disso representam 19,25 ml/kg/minuto. Relembremos que para andar a 5 quilômetros por hora você usa 12 ml/kg/min.”

Todas as considerações de Turibio dizem respeito à tolerância energética, ou seja, se meu motor metabólico está apto a sustentar energeticamente a caminhada. “À parte disso existem todos os outros cuidados. Você deve ver se hidratação, nutrição e sono serão adequados”, recomendou. Por fim, a frase que ao mesmo tempo reconfortou e me deu mais pique para me preparar. “Posso afirmar que metabolica e cardiologicamente você está apto.” Ufa!