Sacoleiros do passado
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sacoleiros do passado

Fabio Vendrame

18 Fevereiro 2014 | 02h00

Ilustração: Marcos Müller/Estadão

Os pratos estranhos aos quais mr. Miles referiu-se na semana passada provocaram engulhos em grande parte de seus leitores. Uma leitora goiana confessou que sempre nutriu um secreto desejo de beijar nosso correspondente britânico. “Mas agora, depois de saber que o senhor come escorpiões e morcegos, vá com essa boca para longe!”, reclamou. Já o leitor e proprietário de restaurante Ocilio Ferraz ficou entusiasmado com a leitura. “Há mais de 30 anos promovo a formiga içá (ou tanajura) como complemento alimentar, em respeito aos hábitos dos povos indígenas do Vale do Rio Paraíba, onde nasci e resido”, relatou. E, para mostrar que o assunto deve ser levado a sério, comprometeu-se a enviar-lhe uma partilha de içás com farinha de mandioca crua.

A redação, desde já, agradece em nome do homem mais viajado do mundo. Que terá grande prazer em ir até o restaurante do leitor em sua próxima visita ao país.

A seguir, a pergunta da semana:


Querido mr. Miles: confesso que comecei a viajar para comprar em Miami, onde os preços são mais baratos. E foi assim, trazendo e levando bugigangas (permitidas pela lei) que aprendi os rudimentos de ir para o exterior, enfrentar burocracia, conviver com um idioma que não conhecia e experimentar comidas às quais não estava habituada. Hoje, tenho viajado cada vez mais com base nesses conhecimentos. E, embora ainda compre alguma coisinha, acho que venci a barreira que me separava do mundo. Diga-me o que pensa sobre isso, please. (Barbara Lopes Sendini, por e-mail)

Well, dear Barbara: antes de mais nada, você merece my congratulations. O mundo fica melhor cada vez que alguém, as you say, ‘vence a barreira’ que o separa dele. Na verdade, somos nós que erguemos essas barreiras. O planeta está sempre à nossa espera e quanto mais o conhecemos e compreendemos, mais gostamos dele, cuidamos dele e deixamos de apenas – como diria Candido, de Voltaire – ‘cuidar de nosso jardim’.

Não me espanto que as suas primeiras experiências viajoras tenham sido em busca de mercadorias mais baratas. Esse, aliás, é o principio da movimentação de viajantes por terras estrangeiras desde priscas eras. Foi em busca da seda que nossos antepassados criaram estradas para unir o Oriente ao Ocidente. As especiarias, que tornaram a culinária europeia muito menos insossa, levaram navegadores a descobrir e registrar rotas marítimas no caminho das Índias. O ouro e a prata da América do Sul levaram para vossas latitudes os primeiros viajantes estrangeiros. E foi, as well, no Ceilão (N. da R.: atual Sri Lanka) que encontramos a matéria prima para o nosso chá das cinco.

As you see, as viagens ‘de compras’ foram as pioneiras da história dos viajantes. Em busca de vantagens e riquezas, os povos resolveram ganhar o mundo realizando bons negócios. Unfortunately, naqueles tempos, muitos dos viajantes não estavam dispostos a entrar em outlet stores para realizar suas barganhas. Eles preferiam simplesmente tomar as riquezas à força ou trocá-las por espelhinhos coloridos. Besides, cometiam outro erro grave: adoravam converter os nativos às suas próprias crenças ou exterminá-los em caso de resistência.

Nowadays, embora ainda existam seres estultos e arrogantes que visitem outras terras com o objetivo de ensinar – ao invés de aprender –, estamos ligeiramente mais civilizados. E, assim como você, darling, temos entendido que o ato de viajar é tão simples quanto o de respirar. Basta abrir os olhos para o mundo e, pela primeira vez, embriagar-se com o ar que entra nos pulmões.

Depois disso, nada nos impedirá de fazê-lo pelo resto de nossas vidas. Don’t you agree?”

Mr. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS