Saudades de Erzgebirge
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Saudades de Erzgebirge

Adriana Moreira

17 Dezembro 2013 | 02h40

Nosso eclético viajante foi para Bruxelas onde, segundo ele, “sabe-se lá por quê” foi convidado a compor o seleto júri de uma competição nacional de cervejas.  O certame fê-lo provar, durante três dias, algumas dezenas de amostras distintas provenientes de célebres produtores locais. Com a fleuma habitual, mr. Miles atribuiu notas a cada uma delas. Entretanto, dado seu pouco apreço por bebidas fermentadas de baixo teor alcoólico, não esqueceu de levar, na bagagem, um consistente estoque de genuíno scotch. Sua correspondência desta semana vem, portanto, da “magnífica Grand-Place”.


Olá, mr. Miles.  Em janeiro, meu esposo e eu vamos visitar parentes na Alemanha, na região de Erzgebirge. Espero um inverno bem diferente do brasileiro, mas estou com muito medo do frio… Será que vou congelar? Como fazer turismo no frio?! By the way, antes de chegar à Alemanha faremos uma breve escala (3 dias) em Lisboa. Quais as atrações imperdíveis por lá? Fernanda M. Le Bourlegat, por e-mail

What a coincidence, my dear! Tive uma grande amiga, infelizmente já falecida, que viveu na região de Erzgebirge, na fronteira entre a Saxônia germânica e a Boêmia checa. Durante a Segunda Guerra, Verena – era esse seu nome – fez alguns serviços de, how can I say?, municiamento de informações para as forças aliadas na região. Não sei se você sabe, dear Fernanda, aquela área é muito rica em minerais, inclusive urânio. Tínhamos de ficar de olho, do you understand?

Ilustração: Marcos Müller/Estadão

No fim da guerra, fui encarregado de livrá-la dos soviéticos e tive o prazer de trazê-la pessoalmente para Londres. What a nice girl! Foi minha professora de erzgebirgisch, um dialeto local tão impronunciável que, ao fim de algumas aulas, tive uma contratura no genioglosso, o maior dos pares de músculos que movimenta a língua. It was awful, really awuful.

Pois foi com Verena, em situação mais romântica, que voltei àquelas lindas montanhas. You’re right, darling: os invernos podem ser impiedosos na região. Menos, porém, que nos vizinhos Alpes bávaros, que são muito mais altos.

Considere, however, que as mudanças climáticas têm sido muito acentuadas. Não me surpreenderia nem um pouco se as suas férias em Erzgebirge não tivessem sequer um floco de neve. O que, I’m sorry to say, seria uma pena. A neve, nessa parte da Europa, é tão bem-vinda quanto o chantilly. Os povoados aguardam-na com caldeirões de glühwein, um condimentado vinho quente que ameniza o frio. Em todas as partes há festas com pirâmides natalinas e scwhibbogen (arcos de madeira com velas pendurados nas janelas), duas famosas criações locais. Elas são feitas para o Natal, mas é possível vê-las em janeiro, sobretudo antes do dia dos Reis Magos.

Você me pergunta, my dear, sobre como fazer turismo no frio. Só posso lhe dizer que tenha o espírito preparado para ele – além, é claro, de um ótimo sobretudo. As estações do ano, remember, são a jornada que o nosso planeta faz para, como qualquer bom viajante, desfrutar de novos ares. A monotonia do verão perpétuo é um convite à indolência e, ainda que conveniente, equivale ao fastio de ler sempre o mesmo livro, beber sempre o mesmo vinho e jamais ouvir uma nova melodia.

Quanto a Lisboa, darling, você vai se sentir em casa. A cidade é um encanto, da antiga Alfama ao sóbrio Chiado, das Docas de Santo Amaro ao unbelievable Mosteiro dos Jerônimos. Tenha cuidado apenas com o idioma: como, unfortunately, a reforma ortográfica ainda não atingiu a pronúncia, ao conversar com certos lisboetas você terá certeza de que está ouvindo… erzgebirgisch!”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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