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Viajantes não têm casas de veraneio

Tania Valeria Gomes

07 Janeiro 2010 | 14h40

Nosso incorrigível viajante ainda não retornou de sua expedição à Micronésia onde, conforme planejado, passou um réveillon duplo em ilhas próximas, porém separadas pela Linha Internacional da Hora. Segundo a última mensagem que nos enviou, sua intenção era prolongar a estadia em Samoa, onde estava sentindo-se muito confortável. É do remoto arquipélago norte-americano que ele envia sua correspondência desta semana.

Caro Mr. Miles: possuo uma casa no Litoral Norte de São Paulo há quinze anos e, sempre que tenho férias, venho para cá. Gosto daqui, mas ela me dá muito trabalho e me impede de viajar para outros lugares. O que o senhor me aconselha a fazer?
Robson Moraes Elidio, por email

Well, my friend: esse tema já foi abordado em uma de minhas colunas, mas não custa nada reavivá-lo, sobretudo porque é justamente nesta época do ano que os proprietários de casas de veraneio no Brasil são obrigados a trocar o prazer de expandir seus horizontes pela incumbência de usufruir do mesmo destino de sempre.
E eu já posso vê-los, suarentos, procurando quem conserte seus refrigeradores afetados pela maresia ou pela falta de uso. Outros estarão em busca de mão-de-obra que ajude-nos a reposicionar as telhas deslocadas durante a estação de chuvas, responsáveis, portanto, por inconvenientes goteiras na sala que, of course, está cheirando a mofo.
Um terceiro grupo, afetado pelas freqüentes interrrupções no fornecimento de água que afeta balneários superlotados, terá, unfortunately, de encher seus baldes no próprio mar, além de enfrentar as longas filas nas portas dos mercados em busca de água potável.
Oh, que maravilha de férias!
Atividades sem fim, noisy neighbours e, mais que isso, a fatídica certeza de que será preciso voltar no ano seguinte, e no outro, e no outro, pois enquanto um cidadão possuir uma casa de veraneio ele dela será seu escravo, os custos de manutenção, unless he is a millionaire, não permitirão que ele viaje para qualquer outro lugar senão para a casa que possui e que provoca a inveja de seus amigos.
Believe me, my friends: esse é um fenômeno mundial. Tenho inúmeros amigos ingleses que antes viajavam mundo afora e acabaram cedendo à tentação de adquirir uma casa desse tipo no sul da Espanha, ou no Algarve ou nas ilhas Canárias. A história é exatamente a mesma. O entusiasmo inicial pela aquisição revela-se o que de fato é: um golpe fatal na possibilidade de sentir-se atraído por um outro destino. África never more. Forget South America.
Admito, however, que essa é uma opinião incorrigivelmente contaminada por meus ideais de viajante. Com certeza, existem prazeres escondidos por trás desses sacrifícios que mencionei e eu sou demasiadamente míope para enxergá-los.
Quanto a sua questão, fellow, não tenho senão respostas óbvias a oferecer. Ou você aluga sua casa por temporadas (e, of course, nesse caso, prepara-se para custos de manutenção ainda maiores) ou tenta colocá-la à venda. Se você optar por este último caminho, aceite um conselho especial: por motivos óbvios, evite oferecê-la os leitores desta coluna. Got it?