Amsterdã, a comida como obra de arte

Amsterdã, a comida como obra de arte

Heitor e Sílvia Reali

23 Junho 2018 | 16h09

 

Amsterdã

Fruit and Han, obra de Jan de Heen
crédito: Flavorwire


Quantas cidades poderiam determinar sua criação e posterior riqueza graças a uma originalidade gastronômica? Pois assim nasceu Amsterdã, Holanda, entre névoas e águas, na foz do rio Amstel, quando Willen Brukelszoon descobriu o método para defumar arenque. O peixe, conservado por mais tempo, alavancou o desenvolvimento do porto que prosperou ainda mais com a exportação da cerveja vinda de Hamburgo.

Amsterdã

Baixo-relevo de um banquete indicando que a casa pertenceu a um rico comerciante
crédito: Viramundo e Mundovirado

Depois de direcionar as águas que invadiam livremente suas terras, com diques, moinhos e canais, os holandeses partiram para o além-mar em busca das especiarias. Pimenta, cravo, gengibre, canela e noz-moscada, hoje reduzidos a singelos elementos culinários, eram naquele tempo de vital importância para saborar e aromatizar carnes e peixes.

A cidade construída ao longo dos canais tem uma arquitetura de detalhes singulares: casas de fachadas altas e estreitas, frontões triangulares ou em degraus e pequenas placas de pedra decoradas. Estas serviam para identificar o proprietário e seu trabalho numa época em que não existia o sistema de numeração. Vêem-se desta maneira representados uma leiteira, um padeiro, um pescador. Artistas criaram para ricos negociantes alegorias mais sofisticadas, como o baixo-relevo de um banquete ou o busto de Ceres, a deusa romana protetora dos cereais.

Rijksmuseum

Autorretrato de Remblandt brindando a alegria da vida, Rijksmuseum
crédito: wikipedia

 

Percorrendo o Rijksmuseum, o maior museu de arte de Amsterdã, fica clara nas obras dos grandes mestres a simbiose arte/gastronomia. O jantar da corporação da Guarda Civil, obra de Cornelis Anthonisz, de 1533, é um dos primeiros quadros expostos, e quase ao lado fica o “Banquete dos Oficiais de Saint-Georges” de Frans Hals. Estas telas mais parecem verdadeiras confrarias báquicas com grandes assados, pães e vinhos, servidos em pratos de porcelana fina e taças de peltre. Em outra tela, Rembrandt se apresenta com sua jovem esposa brindando com um longo e elegante copo de vinho a alegria da vida. Na mesa atrás do casal, se vê uma torta de ave exótica.
No mesmo apetite, mas em outro tom, Pieter Aertsen retrata a festa camponesa “Dança dos ovos” e Jan Steen registra um almoço em família, onde todos estão visivelmente embriagados. Bosch, por sua vez, concebeu a “Gula” em tons de rosa, e Van Gogh imortalizou em quadros, batatas cheias de terra, repolhos, pêras, uvas até um prosaico vaso de cebolinhas verdes. Quem diria, museu dá fome!

 

Amsterdã

Loja de pães e queijos Simon Meyssen
crédito: Viramundo e Mundovirado

Se me pedissem para definir uma cor de Amsterdã, eu diria a de terracota. E um aroma? Eu cravaria o das especiarias. Foi como apreendi a cidade quando andei e desandei margeando os canais e labirintos de ruazinhas e vielas. A cor é a das casas centenárias milagrosamente conservadas, já o cheiro das tabernas, pubs, mercearias e delicatessens.
E por falar nelas a tentadora vitrine da loja Simon Meyssen atrai pelo ocre dourado e castanho de dezenas de variedades de pães para petiscar com diversos tipos de queijos. Só do tipo gouda (pronuncia-se hrráuda) existem 27. Já a Gastrovino, das mais famosas casas para gourmets da cidade, exibe na vitrine uma composição surrealista: suas melhores especialidades flutuam no fundo infinito de valiosa moldura. Ali estão a cerveja Zatt fermentada na própria garrafa, o rum com frutas exóticas, queijos e chocolates como o Verkade ou o Droste, para citar apenas alguns.

Amsterdã

Loja de espediarias Jacob Hooy & Co que funciona desde 1743 em Amsterdã
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Na Jacob Hooy & Co, a loja de ervas mais antiga de Amsterdã (e talvez de toda Europa), especiarias, chás e temperos conservam o mistério dos locais longínquos de onde vieram. Logo à entrada, uma estranha escultura de duas cobras entrelaçadas, sem dúvida em alusão ao símbolo de Hipócrates, parece reafirmar que o alimento e a medicina procedem da mesma fonte. Nos potes de porcelana ou nas gavetas de carvalho francês se guardam alcaçuz, cardamono, anis-estrelado, açafrão e favas de baunilha. Uma loja para os alquimistas da cozinha.
Mas os holandeses adoram mesmo é fazer compras ao ar livre. De escargot a cogumelos, de arenques a queijos, o mais completo mercado é o Cuypmarket, assim batizado em homenagem a mais um pintor holandês, Albert Cuyp.

 

Amsterdã

crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Agora, se pintores preferem a mesa colorida, poetas sempre buscaram inspiração nos cafés.

Neles vi também similaridades entre arte e comida. A mais óbvia está na decoração interna. Atrás das fachadas históricas de antigos prédios surge um universo em sintonia com o século 21. O resultado do décor, mesmo que alguns apelem para a excentricidade, é sempre surpreendente e de bom gosto.
Amsterdã pela diversidade de seus Cafés sai na frente de outros países: Pub, brown café, eetcafe, designer bar, bar de degustação, jazz café e, se você se dá a devaneios psicanalíticos, o smoking café. Em suma, cada qual com seu jeitão.
Os brown e eetcafés que fizeram minha cabeça foram o tradicional Café Americain, na Leidseplein, a praça mais movimentada da cidade, e o badalado De Jaren com vista para o rio Amstel, ou ainda o Esprit. Por quê?

Amsterdã

Café De Jaren
crédito: cortesia De Jaren

Porque neles foi difícil definir quem protagoniza quem. O cardápio convidativo ou a elegância e a autenticidade de cada lugar, cada qual com sua arte. O Americain decorado em autêntico estilo art nouveau é point de intelectuais, artistas e políticos que ali dispõem de mesas destinadas à leitura de jornais e revistas. O De Jaren é o preferido dos estudantes, e fácil de ser encontrado pelo rastro da música pop e eletrônica.
Na esteira arte e cafe surgiram os Designer Bars, com arquitetura e decoração arrojada. Um deles é o Esprit, repleto de gente bonita (isso também não é arte?), onde lembrei do poema de Cassiano Ricardo. “A linda moça, de olhar gris, toma café. Moça feliz”.

Amsterdã


foto eetcafe Parkuis
crédito: cortesia Café Parkuis

Para confirmar que arte e gastronomia em Amsterdã sempre andaram juntas, o Café Pakhuis está instalado no maior centro de design holandês, o Interior & Design Center Pakhuis. Na verdade, ele me pareceu flutuar em uma estrutura de vidro acoplada a um antigo armazém das docas da cidade. Do café se tem uma das mais sublimes vistas desta cidade, feita de água e névoa, onde tudo começou com um peixe.

Amsterdã

… e tudo começou com o arenque
crédito: Viramundo e Mundovirado

Endereços úteis:

Café Americain – Leidsekade 97

De Jaren – Nieuwe Doelenstraat 20

De Tuin – Tuindwarsstraat 13

Café Esprit – Spui10

Café Metz & Co – Keisersgracht 455

Café Pakhuis – Oostelijke Handelskade 17

Jacob Hooy & Co – Kloveniersburgwal 12

Simon Meyssel – Albert Cuypstraat 80

Gastrovino – Hoofstraat 59

Cuypmarket – Albert Cuypstraat 7-700  

Acompanhe os autores também no Viramundo e Mundovirado, no facebook viramundoemundovirado e instagram @viramundoemundovirado

 

 

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