Chiloé, e a graça singular de suas igrejas de madeira

Chiloé, e a graça singular de suas igrejas de madeira

Heitor e Sílvia Reali

07 de junho de 2019 | 16h48

Igreja de Ichuac
crédito: Viramundo e Mundovirado

A arquitetura, qualquer que seja sua natureza, me entusiasma. Por isso, quando li que singelas igrejas de madeira do século 17, erguidas por nativos – exímios construtores de barcos – foram declaradas Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, zarpei sem demora numa viagem a Chiloé. Neste arquipélago, centro sul do Chile, as igrejas são exemplo único na América Latina de arquitetura religiosa em madeira, e representam o êxito da fusão entre a cultura indígena e europeia, a completa integração da arquitetura com a paisagem, além de manterem os valores espirituais de suas comunidades.

Igreja de Santa Maria de Achao. Nas singelas pinturas e entalhes a vibrante fusão do espírito dos jesuítas e indígenas
crédito: Viramundo e Mundovirado

Igreja de Santa Maria de Achao
Toda vez que me encontro no local que motivou minha viagem mal seguro a ansiedade. Sigo com ela então, para a Ilha de Quinchao, e começo meu roteiro por uma das mais antigas igrejas de Chiloé, 1690, cuja patrona é Santa Maria de Loreto.
Sóbria e rústica, toda revestida de tejuelas, telhas de madeira colocadas simetricamente se encontram descoradas num tom entre o cinzento e o castanho. Quase sem atrativos que me despertassem a atenção, entro impaciente no templo. Bênçãos!! Eis que encontro aqui a maior definição de contraste. Pinturas e entalhes adornam o altar, o sacrário, os nichos dos santos, a abóboda e o púlpito, em tons de azul entre o cobalto e o celeste que se destacam do laranja claro da madeira.

A igreja de Achao é o orgulho de seus moradores e um comitê de mais de dez mulheres se encarrega das constantes obras de restauração.
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Curioso detalhe da arquitetura: a coluna se apóia sobre uma pedra
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Igreja de Dalcahue. As igrejas foram construídas com a madeira dos bosques que rodeiam as ilhas 
crédito: Viramundo e Mundovirado


Igreja de Dalcahue
Uma capela dedicada à Nossa Senhora das Dores, erguida em 1734, foi sendo ampliada durante séculos até se tornar em 1902 a maior igreja do arquipélago. O portal elegante tem 9 arcos, e um pequeno museu na sacristia abriga produtos típicos da vila. O nome Dalcahue é composto de dalca, bote, e hue que significa lugar.

É bem visível o carinho das mulheres dali por Nossa Senhora das Dores, patrona de Dalcahue: manto, vestido e até o terço são feitos em crochê. Sua auréola sugere o tradicional pente das espanholas. crédito:Viramundo e Mundovirado

 

O interior da igreja de Dlcahue bem conservado tem a abóboda no mesmo tom azul esverdeado dos detalhes da fachada
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Igreja de São Francisco, em Castro: O arquiteto italiano enviou a planta do edifício que, devido suas dimensões, deveria ser erguido em tijolos, porém, o mestre carpinteiro ousou construir todo em madeira
crédito: Viramundo e Mundovirado


Igreja de São Francisco de Castro
Na praça da principal cidade de Chiloé, Castro, a imponente igreja dedicada a São Francisco, por sua grandiosidade é chamada pelos chilotas de Catedral. O templo original data de 1567, mas duas vezes foi destruído por piratas holandeses, já em 1902 consumido por um incêndio, e a partir daí reconstruído sucessivamente.  Seu interior tem a cor quente das madeiras nativas que foram trabalhadas com grafismos e entalhes nos altares, muros, janelas e balaustras.

Vitrais adornam e deixam passar luz para interior da igreja de São Francisco
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Um dos altares laterais é dedicado ao justiceiro e guerreiro São Miguel Arcanjo que vence o mal representado na figura do demônio. A obra é entalhada em madeira policromada.
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

No céu noturno de Chiloé se destacam as torres e a cor clara e amarela do templo de Castro
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Igreja de Nercón
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Igreja de Nossa Senhora das Graças de Nercón
A igreja de Nercón, de 1734, tem bela localização ao lado de uma baía, um jardim ao estilo clássico com canteiros ladeados de buxinhos, e ao lado o cemitério como era o costume.
Rústica, mas imponente e solene, essa igreja me transmite tranquilidade. Uma vez mais sou surpreendida por seu interior, desta vez, não por conta da arquitetura, mas pelo capricho da decoração. Acreditei até mesmo que um casamento iria se realizar, mas era a festa da padroeira Nossa Senhora das Graças.
Na vastidão da abóboda navega um barquinho solitário, forma de pedir bênção e graças aos pescadores que enfrentam o Oceano Pacífico que trai seu nome, ou aos construtores da igreja que vieram de barco da distante Patagônia.

A torre de Nercón com dois ‘tambores’ e um capitel recoberto de telhas de alerce, domina a paisagem
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Detalhe do revestimento com finas tábuas de madeira e os arcos do pórtico
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Santeiros chilotes entalharam Santo Antonio com Jesus Menino
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Devoção à Virgem que se traduz na alegria das cores e flores
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Igreja de Ichuac
crédito: Viramundo e Mundovirado


Igreja de Ichuac
Depois de breve travessia em balsa, chego em Lemuy, ilha onde a igreja está em meio a um jardim verde brilhante com esparsos narcisos amarelos. D. Maria, a guardiã da chave do templo, me diz que os fiéis são incansáveis e se esforçam para conservar e restaurar o templo, assim como recuperar as antigas tradições como os cânticos pascais, e uma salva de tiros para saudar algumas importantes celebrações.
Seu frontão é todo revestido de tejuelas, e a torre tem dois ’tambores’, um octogonal e o outro quadrado, feitos em madeiras diversas como o coigue, alerce, e o cipreste.

Na fachada desenhos de estrelas, losangos, e fontes estilizadas, ladeiam um relógio pintado que marca três horas da tarde, sinalizando a hora da morte de Cristo, ou ainda a do maior terremoto registrado até hoje, em 1960, na região de Valdívia, Chile.
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Chama a atenção a abóboda da igreja que, dizem os especialistas se assemelha à estrutura de uma embarcação invertida
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Na falta de santeiros para entalhar as imagens, os carpinteiros foram incentivados pelos jesuítas a criarem também os santos
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Igreja de Aldachildo. Solitária, a igreja de Aldachildo se ergue na planície do povoado mais antigo da Ilha Lemuy
crédito: Viramundo e Mundovirado


Igreja de Aldachildo
O nevoeiro é presença constante no meu caminho até a comunidade de Puqueldón, na Ilha de Lemuy. Ao descer do carro sou varrida pelo vento forte que sopra da baia, e me contam que sua torre sobressai e é bem visível pelos navegadores ao entardecer ou sob espessa bruma. Chiloé poderia ser o país da chuva pelas mil formas de água que caem do céu, de cerração a furacões. Dizem que as torres das igrejas do arquipélago serviam de farol aos navegantes chilotes. O templo de Aldachildo é dedicado a Jesus Nazareno e na abóboda o céu é azul é salpicado de centenas de pequenas estrelas.

O dia amanhecera nublado e chuvoso, mas apenas despontou o sol a fachada se tingiu de pátina pastel dourada
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Igreja de Chonchi. Quase não há faróis em Chiloé, daí que durante anos os marinheiros chilotes se guiavam pelos altos capitéis das igrejas, como esse de Chonchi
crédito: Viramundo e Mundovirado

Igreja de Chonchi
Na igreja de Chonchi, cujo patrono é São Carlos Borromeo, minha surpresa é inversa: o exterior colorido em tons de azul e amarelo palha, contrasta com o interior monocromático e quase sem adornos. Construída em 1900, teve a torre arrancada do corpo da igreja por uma das ferozes tormentas que costumam se abater sobre o arquipélago. Destaco algumas curiosidades: as paredes não são paralelas, o que me dá a impressão de ser maior do que é na realidade, e em uma das colunas de madeira foi preservada a pintura original que pretendia imitar o mármore.

Na comparação da abóboda com uma embarcação fica clara a mesma maneira de construir inclusive com encaixes, quadernal e vértebras 
crédito: Igrejas de Chiloé

 

Hotel Tierra Chiloé
crédito: Viramundo e Mundovirado

A renomada Lonely Planet destacou Chiloé como o 3O destino com mais atrativos do mundo, e está sempre presente em alguma revista de bordo ao redor do planeta. Chiloé possui uma cultura muito particular, e para curti-la integralmente com itinerários de barco, gastronomia típica das ilhas como o curanto, birdwatching, cavalgadas, excursões inusitadas, além de roteiro pelas mais significativas igrejas, considere se hospedar no Hotel Tierra Chiloé, onde você poderá sentir o que é uma imersão nesse lugar privilegiado, um dos mais especiais do Chile. Foi o que fiz e foi perfeito!

Maquete em exibição no Hotel Tierra Chiloé mostra o esqueleto impressionante das igrejas
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

‘Calipso’ é o nome do tom de azul preferido pelos chilotas para colorir as igrejas ou os detalhes da arquitetura
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

A capela de Detif dedicada a Nossa Senhora de Lourdes, fica em um dos locais mais expostos aos temporais da costa, daí seu nome que no idioma ‘mapudungun’ significa ‘ruído do vento’. 
crédito: Viramundo e Mundovirado

 

Considere quando ir:
Hotel Tierra Chiloé, Região dos Lagos, Castro, Ilha de Chiloé, Chile
www.tierrahotels.com

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